• hikafigueiredo

"Pássaros de Verão", de Ciro Guerra e Cristina Gallego, 2018

Filme do dia (116/2022) - "Pássaros de Verão", de Ciro Guerra e Cristina Gallego, 2018 - Colômbia, final da década de 60/início da década de 70. Em um pequeno povoado indígena do país, um clã da etnia Wayuu se envolve no nascente mercado internacional da maconha. Neste contexto, o jovem Rapayet (José Acosta) casa-se com Zaida (Natalia Reyes), unindo duas famílias, e torna-se o principal intermediário entre os produtores da Cannabis e os importadores norte-americanos, uma atividade que se revelará bastante perigosa.





A obra, baseada em fatos verídicos, retrata os primeiros passos do narcotráfico em terras colombianas, revelando o envolvimento de tribos nativas na atividade. No entanto, se, por um lado, o tráfico de maconha mostrava-se extremamente rentável, também se revelou uma atividade muito perigosa, capaz de acabar com vidas e com a própria cultura daqueles povos. A obra mostra-se bastante interessante, mostrando um pouco da cultura da etnia Wayuu, com suas crenças, seus rituais e hábitos, incluindo, aí, seu forte senso de pertencimento familiar, sua cega obediência às regras ancestrais e seu orgulho de sua etnia. Originalmente altivos e muito leais aos seus, os Wayuus pouco a pouco vão tendo sua cultura minada pelo contato com outros povos (em especial os norte-americanos), bem como pela ganância. Disputas internas por poder e por orgulhos feridos vão tomando vulto, gerando morte e destruição pelo caminho. O filme vai acompanhar pouco mais de uma década de duas famílias, intervalo de tempo em que veremos a rápida ascensão destes grupos familiares até seu ocaso. Uma coisa que me chamou a atenção foi como a cultura ancestral passa a disputar espaço com novos hábitos e questões, numa verdadeira luta pelo predomínio. A narrativa é linear, em ritmo bem marcado e crescente. A atmosfera é de desastre iminente - mesmo enquanto o comércio de maconha está em crescimento, indo de vento em popa, percebemos que algo basal está, silenciosamente, a ruir. Neste sentido, o surgimento do personagem Leonidas é sintomático - um jovem arrogante, convencido de seu poder, acreditando-se intocável, desrespeitoso para com sua família e sua cultura, ele é o anúncio do que se aproxima, assim como será o motor do fim (nossa... profundo ódio pelo personagem!!!). O roteiro é muito bem desenvolvido, não deixa arestas ou pontos nebulosos. A fotografia é muito clara, com cores saturadas e contrastadas - isso ocorre, inclusive, porque a maior parte das cenas são externas (chutaria algo entre 80 a 90% das cenas), de modo que se aproveita muito a luz natural. Também temos um grande número de cenas com planos bem abertos, mostrando um pouco da natureza típica do local. O elenco traz, no papel de Rapayet, José Acosta - o personagem se mostra quase um ingênuo, facilmente levado pelos demais, inclusive por sua sogra Úrsula, a matriarca da família, e o ator consegue transmitir certa fraqueza do personagem muito bem; como a personagem Úrsula, Carmiña Martinez, ótima como a controladora e in flexível matriarca; como Zaida, Natalia Reyes - quando o filme começa, parece que a personagem terá muito mais destaque do que acaba tendo na realidade; como o insuportável e odioso Leonidas, Greider Meza - bom, pelo ódio que eu desenvolvi pelo personagem, com certeza o ator o interpretou muitíssimo bem!!! Juan Bautista Martínez, por fim, interpreta Aníbal. Destaque para a cena da dança folclórica inicial de Zaida, com sua câmera movimentada e ritmo marcado. Eu gostei bastante do filme, ele mostra a questão do tráfico por um ângulo bastante inusual e criativo. Recomendo.

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