• hikafigueiredo

"Para Wong Foo, Obrigada por Tudo! Julie Newmar", de Beeban Kidron, 1995

Filme do dia (458/2020) - "Para Wong Foo, Obrigada por Tudo! Julie Newmar", de Beeban Kidron, 1995 - Vida Boheme (Patrick Swayze) e Noxeema Jackson (Wesley Snipes) acabam de ganhar o título de Drags Queens do ano de Nova York e, como prêmio, recebem, cada uma, uma passagem para Hollywood. No entanto, elas acabam decidindo atravessar os EUA de carro para poderem levar, com elas, a iniciante Chi Chi Rodriguez (John Leguizamo). No caminho, elas terão surpresas na recepção em um pequeno vilarejo.





Criado na esteira do sucesso de "Priscilla, A Rainha do Deserto" (1994) e chupinhando descaradamente parte do enredo, este road movie de temática LGBTQIA+ me deixou bastante dividida. Se, por um lado, o tema me atrai e eu acredite que alguma visibilidade é melhor do que viver nas sombras, por outro me incomoda pelo humor envolvido e pela escolha de elenco provocativa e aproveitadora. Com relação ao tema, como árdua defensora dos direitos LGBTQIA+, eu realmente acho que discutir assuntos relacionados à orientação sexual e identidade de gênero é o único caminho possível para diminuir o preconceito, criar um ambiente propício à aceitação das diferenças e cessar a violência contra essa população. Assim, qualquer obra que trate destas temáticas com um olhar positivo é sempre bem-vinda. No entanto, quando estes temas são abordados pendendo para um humor um tanto quanto jocoso, eu me questiono se isso não acaba tendo o efeito inverso, ou seja, reforçando o preconceito. Sem conseguir responder essa última questão, achei que o filme envereda por um caminho perigoso ao colocar como protagonistas três atores cisgênero e heterossexuais, dois dos quais ligados a uma imagem especialmente máscula (Swayze e Snipes) - é evidente que a ideia era "forçar a barra" e extrair certo humor e estarrecimento com essa escolha de elenco. Para piorar, a opção acabou por estragar, em parte, as personagens e, até mesmo a história - quem, em sã consciência, olharia para Patrick Swayze e Wesley Snipes em vestidos e acreditaria, por um segundo sequer, tratar-se de mulheres cisgênero (coisa que acontece, em parte, no filme)? Não dá, cara, eles estão há anos-luz da feminilidade e glamour de uma Ru Paul, Raja Gemini, Tyra Sanchez ou Rita Von Hunty, só para falar das minhas drags prediletas! Olha... ainda dá para passar um pano para o Patrick Swayze, ainda que, por vezes, ele parecesse excessivamente caricato, mas Wesley Snipes foi, o tempo inteiro, apenas um homem (grande e forte) de vestido... A história é bonitinha e tals, as personagens surgem como verdadeiros anjos ou, talvez, fadas madrinhas, mas é tudo muito irreal e inverossímil - muito provavelmente, na vida real, as três sofreriam toda a sorte de violências e ignorância se acabassem presas numa cidadela do interior dos EUA, antro de reaças e homofóbicos. Mas, se aceitarmos o mundo quase cor-de-rosa do filme, a obra acaba sendo fofa e as personagens angariam a simpatia do espectador, mesmo que esse não seja engajado como eu. A narrativa desenvolve-se bem, mas sem grandes volteios ou peripécias e sem a profundidade do filme que o inspirou. O ritmo é ágil e a atmosfera, otimista. Discute-se, claro, a questão da aceitação, mas sempre de uma maneira bastante leve. Visualmente, o filme também não conta com o impacto e glamour de "Priscilla, A Rainha do Deserto" - nem pela fotografia, aqui comum, quanto pela direção de arte, bem basiquinha se considerarmos o purpurinado universo Drag (um único bloco de episódio de "Ru Paul's Drag Race" tem mais paetê e glitter do que o filme todo). Podiam ter aproveitado o talento para a dança de Swayze para utilizar em algum número musical (ou fizeram isso e deu ruim). Também podiam ter caprichado mais na trilha sonora, sem graça. Amei ver Ru Paul em uma pontinha - ela é sempre um arraso! Dos três personagens principais, acho que quem se saiu melhor foi justamente John Leguizamo como a latina Chi Chi - nela eu conseguia ver uma verdadeira Drag em início de carreira. O filme, enfim, é mediano, com alguns acertos e vários erros, mas é gostosinho de ver e funciona como entretenimento. Mas "Priscilla" é muito melhor. PS - nem entrei no mérito da representatividade, defendendo a ideia de colocar verdadeiras drags nos papeis porque, à época do filme, 1995, nem se discutia representatividade, então acho que é uma discussão completamente anacrônica.

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