• hikafigueiredo

"Paterson", de Jim Jarmush, 2016

Atualizado: 23 de ago. de 2019

Filme do dia (82/2019) - "Paterson", de Jim Jarmush, 2016 - Na cidade de Paterson, em Nova Jersey, Paterson (Adam Driver) vive uma vida tranquila com sua esposa Laura (Golshifteh Farahani). Trabalhando como motorista de ônibus, Paterson usa seu tempo vago para escrever sobre seu dia-a-dia.





O filme discorre sobre a vida, a poesia e, mais do que tudo, a poesia da vida. Melancólica, a obra mostra a rotina implacável do personagem que, para muitos, seria um verdadeiro suplício, um tédio sem fim, mas, sob o olhar generoso de Paterson - e daqueles espectadores que se permitirem -, esconde a mais pura beleza da vida. Paterson consegue transformar a mais rotineira ação, a mais diminuta observação, o menor detalhe de um momento, em poesia. Ele extrai palavras e sentimentos de qualquer material, físico ou etéreo - e isso é tão bonito de ver! A obra é extremamente sensível, delicada, poética. Há, no entanto, que se permitir sentir todas as emoções sutis que o filme desperta, pois, sem essa verdadeira ligação com as "entrelinhas da vida", a história se esvai em um gigantesco nada. Já deu para perceber que o ritmo do filme é lentíssimo, ele parece se mover em tempo geológico, não serve para quem está acostumado a ritmo frenético de filmes de ação e de super-heróis. Atente-se, ainda, que o "material" usado pela história é a rotina do personagem, então muitas cenas e movimentos repetem-se ao longo da narrativa com pequenas e sutis mudanças de um para outro - eu disse, é beeeeem lento. A atmosfera é suave, tudo é muito leve ao longo da narrativa, com praticamente ausência de clímax. A música é minimalista, assim como a fotografia, que, apesar de caprichada, tenta não se destacar em demasia. Mesmo as interpretações da dupla central são assim, sutis, quase monótonas. O personagem Paterson é um sujeito equilibrado, observador, sensível, nada dado a arroubos de qualquer espécie - "O" camarada pacato e dado à ações habituais e repetitivas; Laura, por sua vez, é uma dona de casa alegre, otimista, sonhadora, mas igualmente pacata, que vê prazer em pequenas coisas do dia-a-dia, como pintar um tecido, ou decorar um cupcake. Diante destas características dos personagens, Adam Driver e Golshifteh Farahani têm de se segurar para não exceder seus personagens - todos seus movimentos têm de ser contidos, sutis, delicados, o que fazem com muita competência. O filme é belíssimo, mas causa um certo estranhamento (como quase tudo do diretor, diga-se de passagem). Além disso, é evidente que exige um público disposto a entrar nessa vibe introspectiva - se não for seu caso, "pelamor", nem começa a assistir que você vai detestar. Eu, que entrei completamente no clima, adorei. <3

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