• hikafigueiredo

"Pieces of Woman", de Kornél Mundrukzó, 2020

Filme do dia (25/2021) - "Pieces of Woman", de Kornél Mundrukzó, 2020 - Martha (Vanessa Kirby) e Sean (Shia LaBeouf) estão grávidos de sua primeira filha. O casal opta pelo parto doméstico, mas o procedimento acaba tendo resultado imprevisível.





O filme, da espécie chute no estômago, discorre sobre luto, perda, formas de lidar com a própria dor, inabilidade em lidar com o outro, destruição, reconstrução e renascimento. Ainda que a questão central seja o luto, vivenciado de formas completamente diferentes pela mãe, pelo pai e pela avó da criança morta, mas dilacerando profundamente todos os envolvidos, eu destacaria duas questões. A primeira é o luto materno. A personagem Martha, muito embora evidentemente destruída internamente, começa a lidar com sua perda através da negação. Ela não exterioriza seu sofrimento, ela age como se não se importasse tanto com o ocorrido - o que, obviamente, não era verdade. Ela desmonta o quarto da bebê, ela não sepulta seu corpo e ela não fala a respeito. Ela guarda toda a dor para si, quase sempre calada. Seu aparente descaso incomoda seu marido e preocupa sua mãe. E aí entramos na segunda questão: a inabilidade em lidar com a dor alheia. Nenhum dos personagens dá espaço ao outro para sofrer de sua forma - todos tentam, de alguma maneira, interceder no movimento alheio (inclusive porque, em alguns momentos, as diferentes formas de lidar acabam colidindo quando se passa para as ações). Sean precisa chorar e falar a respeito... ele sente a necessidade de manter o quarto da filha montado e seus ultrassons; Martha tem a necessidade oposta... ela precisa calar, ela não quer nada que traga de volta as lembranças, até porque nega seu sofrimento. O desacerto só acarreta mais dor, o que, por seu turno, só reforça a inabilidade em compreender o outro. Para mim, esses foram os pontos cruciais da obra. Admito que tive certa dificuldade em estabelecer empatia pela personagem Martha - ainda que compreenda racionalmente seu jeito de trabalhar a perda, não tive nenhuma identificação com a personagem justamente por lidar com perdas de forma diferente. Martha acaba por calar sua dor por meses e o ponto de ruptura só acontecerá na cena da fotografia, momento em que ela, finalmente, estará pronta para enfrentar verdadeiramente sua perda - este também é o momento em que Martha conseguirá retomar sua existência. O filme é repleto de cenas emblemáticas, a começar pelo longo plano-sequência do mal-sucedido parto - a cena é de arrancar o coração com colher, uma vez que o espectador sabe, de antemão, que o procedimento não dará certo e que a dor da perda virá como uma bofetada para todos os presentes; as (muitas) cenas das maçãs, sempre ali, presentes, e que demoramos a entender o significado também são marcantes; a cena do desabafo da avó, que implora por uma reação da filha; a cena do julgamento, um exorcismo de dores e culpas e um momento de perdão; e a doloridíssima cena do restaurante, em que todos percebemos a amplitude da dor da avó, a compreensão e empatia de Martha e a aproximação das duas mulheres. O roteiro é excelente e eu diria que o filme é perfeito não fosse algumas pontuações com música visando a manipulação do espectador, coisa que eu detesto (e é algo que sempre me pega nos dramas norte-americanos, essa vocação ao melodrama, essa incapacidade de deixar o sentimento cru, do tamanho que é, bater no espectador sem ter de dar uma reforçada; por isso gosto mais dos dramas estrangeiros, onde é muito menos comum essa música incidental forçando a barra desnecessariamente). No elenco, uma Vanessa Kirby gigante, que expõe tudo pelo olhar e por seus gestos mecânicos - a dor represada, a negação constante, a raiva incontida, a indignação, o acolhimento que falta, a incompreensão que sobra, o sufocamento, o grito morto na garganta, as lágrimas secas. A contenção da atriz deu a medida exata - perfeita, perfeita. Shia LaBeuf, para mim, faz sempre o mesmo papel e aqui não foi diferente - falta esse ator se arriscar mais, viu....; Ellen Burstyn é uma atriz monstruosa de grande e ela tira de letra sua interpretação como a avó Elizabeth - a fala dela no almoço é maravilhosa!!! Ben Safdie (sim, dos irmãos Safdie) faz uma ponta como Chris. O filme é muito rico, abre um sem fim de temas para discussão (sem fim mesmo!!!). Eu gostei demais da conta e recomendo. PS - Para quem gosta deste tema (e de sofrer muito), aconselho outro filme que me despedaçou dez vezes mais - "Alabama Monroe" (2012). Mas NÃO VEJA ESSE FILME se você não estiver em dia com o antidepressivo - gatilho forte para depressão e suicídio ( o aviso é sério, não é piada).

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