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  • hikafigueiredo

“Prisão nos Andes”, de Felipe Carmona, 2023

Filme do dia (140/2023) – “Prisão nos Andes”, de Felipe Carmona, 2023 – Os cinco torturadores mais sanguinários da ditadura chilena de Pinochet, sentenciados a mais de 800 anos de cárcere, encontram-se presos em uma prisão de luxo, contando com as maiores regalias de verdadeiros milionários. Quando um dos generais dá uma entrevista e expõe seus privilégios, os demais passam a temer que sejam transferidos para presídios comuns, e tentam, por todos os meios, manter seus luxos e regalias.





Nesta excelente produção Brasil-Chile, acompanhamos o cotidiano de cinco torturadores do regime de Pinochet sentenciados a centenas de anos de prisão e detidos em um presídio aos pés da Cordilheira dos Andes. Fazendo parte do mais alto escalão do exército e da aeronáutica, os presos vivem no maior luxo, pago com o dinheiro público e sob a supervisão de guardas que se portam como serviçais. Certo dia, um dos generais dá uma entrevista em que relata, com deboche, seus privilégios, o que não é bem recebido pelos demais companheiros, os quais veem a possibilidade de isso ser malvisto pela população e assim, acabarem sendo todos transferidos para presídios comuns. Dias de tensão se seguem às declarações e os detidos passam a se mobilizar para manter suas regalias. É notório que a ditadura chilena foi uma das mais sanguinárias ocorridas em território sul-americano. É sabido, também, que, posteriormente, a justiça tratou com leniência os agentes que instauraram o medo e terror no país. O filme mostra, muito cirurgicamente, o quão condescendente foi o tratamento dispensado a homens que sequestraram, torturaram e mataram milhares de pessoas durante anos a fio, o que traz reflexos no país até os dias de hoje, posto haver, ainda, na ativa, quem defenda a ditadura chilena. A obra faz a ótima opção de mostrar todo os acontecimentos de dentro da prisão, de forma a criar certo suspense – em momento algum sabemos, com precisão, a repercussão da entrevista no universo extramuros. A tensão crescente acerca do que poderá acontecer e pequenos sinais de que talvez as declarações não tenham sido muito bem recebidas dão a tônica da narrativa. Outro elemento marcante do filme são os posicionamentos e as manifestações absolutamente delirantes dos presos – convictos de suas posições baseadas em delírios de perseguição e do “perigo comunista à espreita”, os detidos se veem como heróis nacionais, aqueles que livraram o país do terror, da pobreza e do comunismo, sempre amparados pelas “vozes em suas cabeças”. Em momento algum, os presos demonstram arrependimento pelo que fizeram – ao contrário, portam-se com arrogância e autoritarismo, chegando à empáfia de tecerem ameaças aos guardas, ao diretor do “presídio” e aos próprios advogados, certos de sua invulnerabilidade. A narrativa é linear, em tempo pausado e bastante adequado. A atmosfera é de tensão entre os personagens, mas, para o espectador, resta a indignação de perceber a farsa da prisão daqueles monstros – confesso que fui dominada por uma raiva atroz pela situação de luxo e conforto que aqueles homens desprezíveis viviam. O roteiro é amarradíssimo, com pouquíssimas pontas soltas. Gostei demais da fotografia do filme, lindíssima, e que traz o aconchego daquele ambiente prisional – sim, é isso mesmo: a fotografia em tons quentes e fazendo uso de recortes de luz consegue expor quão confortável era a situação daqueles presos. O desenho de produção, da mesma forma, também reforça essa sensação de acolhimento e, mesmo sendo, em teoria, uma prisão, a ambientação não tem nada de claustrofóbica ou opressiva, parecendo mais uma casa de campo do que o cárcere. A trilha musical aposta em música clássica, trazendo certa sofisticação e um tom de privilégio à situação. O elenco, excelente, traz Hugo Medina, Bastián Bodenhöfer, Mauricio Pesutic, Alejandro Trejo e Óscar Hernández como os arrogantes e privilegiados generais e brigadeiros – os atores estão perfeitos, seus personagens dão nojo em qualquer pessoa com vergonha na cara. Andrew Bargsted interpreta um dos guardas e, ainda que seja figura central na história, possui passagens que considerei desnecessárias (acredito que a intenção delas foi passar o quão nefasto seria o contato das pessoas com tais indivíduos, possibilitando que elas se “contaminassem” com aquela violência latente e tácita, transformando-se, também, em criaturas perigosas). Destaque para a cena do jantar, a qual evidencia o quanto tais homens teriam de animalesco – excepcional!!! Eu gostei DEMAIS do filme, uma crítica pontual e necessária. Recomendo MUITO.

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