• hikafigueiredo

"Quando Meus Pais Não Estão em Casa", de Anthony Chen, 2013

Filme do dia (160/2020) - "Quando Meus Pais Não Estão em Casa", de Anthony Chen, 2013 - Singapura, 1997. Em meio a uma crise financeira, a família Lim contrata a filipina Teresa (Angeli Bayani) para cuidar da casa e do menino Jiale (Koh Jia Ler). Rapidamente, Teresa ganhará a confiança do garoto, gerando ciúme da mãe do menino.





Este suave drama singapurense discorre, no fundo, sobre o capitalismo e as relações que se estabelecem a partir dele. Ao longo da narrativa, vemos como o capitalismo cria relações de trabalho precárias e como as relações pessoais (familiares, amorosas e afetivas) são colocadas em segundo plano em relação às necessidades financeiras. Tanto os pais da família Lim, quanto a empregada Teresa submetem-se a relações de trabalho precárias - todos temem a demissão, todos aceitam condições ruins de trabalho, todos frustram suas relações pessoais em detrimento de seus empregos. Neste ambiente em que os seus pais só conseguem dar conta de seus trabalhos, o jovem Jiale ressente-se e faz todo o tipo de malcriação para chamar a atenção para si. Os pais, sem procurar entender as necessidades da criança, optam por contratar uma empregada que "ajude" a cuidar do menino. A empregada acaba por assumir uma papel que, em tese, não lhe caberia - o de objeto de afeto do menino que, inconscientemente, deposita o amor que deveria ser destinado a seus pais à empregada. Por sua vez, Teresa deposita o afeto que não pode dar a seu filho natural - uma vez que a criança permaneceu nas Filipinas - ao filho da família que a contratou, o que acaba gerando consequências em seu ambiente de trabalho. O filme traz, consigo, uma carga de tristeza enorme - ninguém ali está inteiro, todos são constantemente consumidos pelas relações de trabalho devastadoras do capitalismo, não sobrando nada para os afetos. A obra dialoga intimamente com os filmes "A Que Horas Ela Volta?" (2015) e "Roma" (2018), ambos filmes onde a empregada doméstica assume o papel de porto seguro afetivo dos filhos dos patrões, só que com críticas bem mais sutis que a dos filmes antecessores. É uma obra delicada, não panfletária e sutil, com um desfecho incômodo, quase destruidor. O roteiro é linear, o tempo é cronológico e o ritmo é suave.Tecnicamente, é um filme certinho, mas não conta com grandes destaques. Gostei bastante do trabalho de Angeli Bayani como a empregada Teresa - diria que ela é a força do filme. No elenco, ainda, Yeo Yann Yann como a mãe da família e Tian Wen Chen, como o pai, ambos okay, mas sem brilho, e Koh Jia Ler, como o menino Jiale, pouco inspirado. Eu achei um filme, acima de tudo, sutil - ele trata de assuntos nas entrelinhas que são maiores do que o que está em primeiro plano. A obra prendeu muito a minha atenção e me envolveu. Eu curti e recomendo.

0 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo