• hikafigueiredo

"Rede de Ódio", de Jan Komasa, 2020

Filme do dia (28/2021) - "Rede de Ódio", de Jan Komasa, 2020 - Tomasz (Maciej Musialowski) é um estudante de direito expulso da faculdade por plágio. Ele tem uma obsessão por Gabi (Vanessa Aleksander), que conhece desde a infância e é filha dos financiadores de sua faculdade. Quando ele começa a trabalhar em uma empresa de marketing digital especializada em destruir reputações de pessoas públicas, ele passa a usar seus contatos para conquistar Gabi e subir na carreira.





Wow!!! Que filme! A obra, atualíssima, discorre sobre o uso da tecnologia, em especial (mas não apenas) da internet e das redes sociais, para criar factoides e, assim, manipular a opinião pública sobre qualquer coisa, desde de consumo até política. Claro que aqui existe um certo exagero, como o envolvimento pessoal do personagem nos esquemas para destruir um político - acredito que a maior parte dos contratados para fazer o triste papel de incitador em redes sociais só se interessam mesmo com o salário na conta no fim do mês e não no que acontece decorrente das suas ações -, mas não deixa de ser uma denúncia à disseminação de fake news, ao uso de robôs e contas de redes sociais falsas, as quais são gerenciadas, às centenas e milhares, por alguns poucos contratados, bem como ao uso político da tecnologia para chegar aos resultados convenientes e desejados por determinados grupos (da elite, pois toda essa operação, logicamente, demanda muito, mas muito, dinheiro). O filme chega a ser assustador ao revelar um pouco das entranhas das empresas de marketing digital, muitas (senão todas), com braços bem pouco éticos voltados à manipulação da opinião pública. A obra mostra, ainda, como as mentes fracas são cooptadas para ir um pouco além das meras manifestações em fóruns digitais e rede sociais, partindo para a ação propriamente dita e se tornando bucha de canhão para todo o tipo de "trabalho sujo" (de manifestações de apoio a atos terroristas) - é uma gente estúpida, intelectualmente limitada, manipulável, recalcada, imbecilizada e sem qualquer autocrítica, tão nossa conhecida. Tudo isso é o grande pano de fundo do filme, que é focado na pessoa do personagem Tadeusz, um sujeito evidentemente desequilibrado e tomado pela obsessão, que, ao longo da narrativa, revela-se um verdadeiro psicopata, sem qualquer filtro ou freio. A obra revela-se um thriller de primeira linha e a narrativa prende o espectador desde a primeira cena, exigindo, no entanto, muita atenção para conseguir acompanhar o raciocínio perverso do protagonista. Devo dizer que o filme não faz concessões - não espere um final onde prevaleça ética e justiça, isso não vai rolar, como não tem rolado, tampouco, no mundo real. A atmosfera do filme é de tensão constante, não há um momento de pausa para respirar. Dos trabalhos de interpretação, ressalto a atuação de Agata Kulesza como Beata, a chefe nada ética de Tadeusz, movida, no entanto, apenas pelos interesses financeiros - a atriz está muito convincente como mera peça do mundo corporativo, ela não tem lado nem opinião, ele apenas faz seu trabalho (sujo); mas o filme é de Maciej Musialowski, que incorpora o maluco de pedra Tadeusz com uma intensidade assustadora. A última cena - exatamente na última imagem do protagonista - temos uma discreta mudança de expressão facial que fala mais que mil palavras: o sorriso muito sutil que escapa por uma fração de segundo, mas que, rapidamente, é recolhido para dar lugar à expressão pesarosa que a situação exigia, algo ínfimo, mas que revela o grande trabalho do ator. Eu achei o filme fantástico por n motivos - primeiro por ser tão bom retrato do nosso tempo; segundo, por seu tom que, sem ser panfletário, assume seu papel de denúncia de uma situação que não pode mais ser tolerada; e, terceiro, por ser um thriller hábil, que arrebata o espectador desde o seu começo. Merece demais ser visto (e está facinho de encontrar, já que está na Netflix). Obrigatório.

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