• hikafigueiredo

"Retablo", de Álvaro Delgado-Aparicio, 2017

Filme do dia (416/2020) - "Retablo", de Álvaro Delgado-Aparicio, 2017 - Segundo (Junior Bejar) é um garoto de 14 anos que vive nos Andes peruanos. Ele admira o talento de seu pai artesão e sonha em seguir seus passos na profissão. A descoberta de um segredo do pai poderá, no entanto, mudar as intenções do rapaz.





Triste que só, a obra discorre sobre preconceito, hipocrisia e julgamento, mas, também, sobre amor, empatia, acolhimento e compreensão. Retrata, ainda, os ranços advindos de uma leitura equivocada da religião cristã - algo bastante comum vindo aqueles que não compreenderam nada das palavras daquele a quem dizem seguir e que tinha uma visão bastante diferente, infinitamente mais empática, acerca do outro. O filme expõe, por fim, a questão da culpa, outra característica construída em cima de uma visão de vida impregnada pelos ditames judaico-cristãos - curiosamente, os personagens são todos descendentes dos povos originários da América Latina e, ainda assim, seguidores fervorosos do catolicismo. A obra mergulha fundo da realidade dessa população indígena, que reside e vive nos cantões montanhosos do país, segue tradições milenares que misturam sua cultura ancestral com elementos religiosos de povos conquistadores, algo que daria uma bela discussão acerca de aculturação. É muito interessante acompanhar o cotidiano dos personagens, observar o meio onde vivem, sua língua (quíchua), suas vestimentas, seus hábitos e tradições - não conheço muito do cinema peruano, fiquei muito bem impressionada. A narrativa é linear, num ritmo agradável e desenvolvimento seguro. A atmosfera começa muito leve e, de repente, transforma-se em algo pesado e sofrido, muito embora eu não compactue da visão de mundo e vida que gerou o drama todo - não posso revelar mais para não dar spoiler, mas tive certa dificuldade para compreender aquela comoção comunitária, ou melhor, eu até entendo racionalmente, mas não consigo sentir a indignação que surge, porque não concordo com os princípios que a geraram. Gostei de como o roteiro se desenvolve, tratando de um assunto tão polêmico. Gostei bastante da fotografia e da direção de arte, retratando as muitas cores daquela cultura. Quanto às interpretações, achei que Junior Bejar está ótimo como Segundo, trazendo todos os sentimentos contraditórios que os acontecimentos realmente despertariam e que passam pela surpresa e revolta até chegar em um estado de compreensão e acolhimento. Amiel Cayo me pareceu um pouco contido como Noé, mas não estraga o personagem; e Magaly Solier Romero (que eu já conhecia do ótimo " A Teta Asustada", 2009) mostra-se segura e muito convincente como Anatolia. É uma obra bela sobre o amor e a admiração de um filho por seu pai, mas triste no que se refere à sociedade, com um desfecho destruidor. Gostei demais e recomendo.

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