• hikafigueiredo

"Satânico Pandemonium", de Gilberto Martínez Solares, 1975

Filme do dia (435/2020) - "Satânico Pandemonium", de Gilberto Martínez Solares, 1975 - A freira Maria (Cecilia Pezet) começa a ter visões de Lúcifer (Enrique Rocha), na forma de um sedutor homem, o qual passa a tentá-la para tornar-se uma serva do diabo.





Cult do subgênero "nunsploitation", o filme é ousado, infame e, lógico, extremamente herético, e acompanha o lento declínio da irmã Maria que, aos poucos, cede às tentações de Lucibel, tornando-se uma mulher cínica e maliciosa. É uma obra que, certamente, irá incomodar os mais religiosos, pois traz as freiras em situações de nudez, sexo e violência, mas sempre dentro do contexto - nada é gratuito. Claro que existe o intuito de chocar, o que não impede, no entanto, de ser um filme de terror bastante eficiente e envolvente. A obra traz, ainda, críticas abertas ou sutis ao racismo e às religiões, respectivamente. A madre superiora mostra-se hipócrita ao dizer-se piedosa, mas destratar as freiras negras, relegadas a servir as demais irmãs, todas brancas. Quanto à crítica às religiões - em especial aquelas de matriz cristãs - o filme aborda a Inquisição e suas práticas espúrias, traz cenas de horrendas torturas e evidencia a hipocrisia de seu discurso, o qual prega amor ao próximo enquanto massacra vítimas indefesas. Gostei muito de uma cena em especial em que o "rebanho" de fiéis é visto como um rebanho propriamente dito (no caso, de ovelhas), a sugerir que as pessoas extremamente religiosas tornam-se gado, sendo guiadas, como animais irracionais, por seus líderes religiosos - crítica muito pontual e profunda em uma cena de pouquíssimos segundos: genial! A narrativa é linear, o ritmo é bem marcado e crescente e, a atmosfera, pesada e incômoda. O roteiro é bem amarrado, ainda que eu não tenha curtido tanto assim o desfecho. A obra deixa evidente sua assumida inspiração no filme "Os Demônios", de Ken Russell (1971), principalmente na cena da orgia. A fotografia traz cores muito saturadas e brilhantes, faz uso de contrastes (o vermelho do sangue nas vestes claras das freiras) e é predominantemente bastante clara. Gostei das interpretações dos protagonistas - Cecilia Pezet tem uma imagem inocente que, pouco a pouco, vai sendo substituída por uma personalidade maliciosa e sedutora e a alternância destes dois estados foi bem colocada; já Enrique Rocha está perfeito como Lucibel: ele possuí uma beleza incomum, um olhar sedutor e um sorriso malicioso difíceis de resistir. O filme foi homenageado em "Um Drink no Inferno", de Robert Rodriguéz (1996), na figura da estonteante Salma Hayek, apresentada como "Satânico Pandemonium" (para quem viu o filme, a icônica cena da dança com a cobra). Eu curti demais o filme - junto com "Veneno para as Fadas", é o melhor filme deste box da Versátil. Recomendo para quem não se importa com heresias.

0 visualização0 comentário