• hikafigueiredo

"Shivá - Uma Semana e Um Dia", de Asaph Polonsky, 2016

Filme do dia (240/2018) - "Shivá - Uma Semana e Um Dia", de Asaph Polonsky, 2016 - Passado o shivá pela morte de seu filho, Eval (Shai Avivi) e sua esposa Vicky (Yevgenia Dodina) precisam retornar às suas rotinas, mas essa transição se mostra mais complexa do que eles esperavam.





O filme busca tratar com leveza e até certo humor um tema que não tem nada de leve ou cômico - a perda de um ente querido. Discorrendo sobre o pós-luto - aquele momento em que o choque inicial já passou e eventuais explosões emocionais já se tornam deslocadas ou exageradas -, a obra tenta retratar um certo espectro emocional de quem está entre a dor da morte imediata e o conformismo de quem já aceitou e superou a perda. O que fazer quando o mundo espera um retorno à rotina e aquele que sofreu a perda ainda não está pronto???? O que fazer com aquele sentimento de vazio, de falta, que a morte de alguém próximo proporciona???Okay, você já aceitou a perda, mas como conviver com essa lacuna que se impõe, como voltar à sua rotina? Inicialmente, graças a uma sinopse equivocada, eu achei que o filme teria mais comicidade do que ele no fim revelou ter. Lá pelo meio do filme, comecei a compreender os sentimentos que norteavam aqueles personagens - a dor da perda, não mais a desesperada que vem imediatamente após a morte de alguém, mas aquela já conformada, aquela que a sociedade espera que pessoas adultas coloquem sob controle e, se possível, nem expressem aos demais. A sensação que eu tive é que os personagens lutavam para colocar seu sofrimento dentro dos conformes sociais, lutavam para calar sua dor e para escondê-la longe dos olhos de terceiros - mas vamos combinar que essa é uma tarefa inglória. Assim, entre drogar-se, trabalhar ou correr no parque, os personagens tentam apenas sobreviver à dor e encontrar algo que os impulsione para a vida. Na verdade, é um filme de nuances, muito mais delicado e sutil do que aparenta e que exige certa sensibilidade para entendê-lo e, até, gostar dele. Quem for muito fechado, muito objetivo, ao filme, garanto, não vai curtir. A obra tem uma estrutura que lembra um pouco uma comédia de erros, mas não se engane: enquanto na comédia de erros o formato busca a comicidade, aqui tenta se mostra o estado emocional meio "perdido", meio "deslocado" dos personagens, uma coisa meio "não sei o que eu tenho de fazer". Mesmo a figura do personagem Zooler (Tomer Kapon), o filho dos vizinhos que na infância era amigo do falecido, que parece excessivamente sem noção, tem justificativa para estar ali (Eval desenvolve uma relação bastante oscilante com o rapaz, evidentemente projetando o filho morto no jovem rapaz desmiolado). Apesar de ter gostado bastante da interpretação de Shai Avivi como Eval, a cena mais marcante, para mim, foi a de Vicky no dentista - Yevgenia Dodina conseguiu trazer muita sutileza à personagem, num momento de incrível sensibilidade. Não é uma obra excepcional, mas curti as nuances dela. Recomendo sim.

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