• hikafigueiredo

"The Square - A Arte da Discórdia", de Ruben Östlund, 2017

Filme do dia (65/2020) - "The Square - A Arte da Discórdia", de Ruben Östlund, 2017 - Christian (Claes Bang) é o curador de um renomado museu sueco. Às vésperas da inauguração de uma grande exposição encabeçada pela obra "The Square", Christian tem alguns pertences furtados. As ações de Christian em busca de reaver seus pertences terão grandes consequências para o museu, para diversas pessoas e para ele mesmo.





Antes de mais nada: adorei o filme, o qual dividiu os espectadores entre aqueles que adoraram e que odiaram. Mas discordo veementemente de quase tudo que li acerca da obra, inclusive da crítica mais especializada. Discordo, por exemplo, que o filme discorra sobre a arte, seu significado ou qualquer "bullshit" do gênero. Para mim, a arte no filme é apenas uma desculpa para apresentar o personagem e as pessoas com os quais se relaciona como pessoas supostamente refinadas, cultas e "diferenciadas" (há ironia aqui). Para mim, a obra trata, na realidade, da irresponsabilidade das pessoas quanto às suas ações, em especial de uma elite intelectual que reverbera superioridade, mas que não assume seus atos, e de ética. Nessa esteira, a obra ainda discorre sobre empatia (ou a falta dela), hipocrisia, egoísmo, a importância dada à imagem, a vida em sociedade, descolamento entre discurso e conduta e moralidade. Explicando: o personagem Christian - que aqui representa todo um grupo de pessoas teoricamente capazes, corretas, éticas, mas, certamente, com cultura e poder aquisitivo elevado - age irresponsavelmente a todo instante, escondendo sua imaturidade, seu egoísmo, sua falta de empatia e sua completa falta de ética atrás de uma imagem de homem público equilibrado, capaz, consciente, etc, etc, etc. Assim, a crítica que se faz é a essa irresponsabilidade perante à sociedade em geral, bem como à hipocrisia e falta de empatia que norteia as ações das pessoas, em especial dessa elite. Depois disso tudo, num quase detalhe, eu vejo a questão da arte como elemento que questiona a conduta humana - nesse sentido, a obra que pergunta ao público se confia ou não nas pessoas (obra de arte altamente pertinente, por sinal). A obra tem diversas sequências incômodas, que criam uma certa "vergonha alheia", uma vontade de não estar ali vendo aquilo - nesta seara, a cena do jantar, a cena da discussão entre Christian e seu funcionário dentro do carro e a cena da entrevista em cuja plateia há uma pessoa com Síndrome de Tourette. Diria que este é um filme que tenta deixar o público constantemente desconfortável, provocador, questionador - e por isso gostei tanto. Mesmo em momentos em que há certo humor, o riso provocado é tenso, travado, nervoso. É uma obra complexa, de leitura ampla e que pode levantar muitas questões acerca de muitos temas - vide a minha leitura em comparação às das críticas que li, completamente diferente!!! Além dos temas tratados, gostei da estética do filme - algumas cenas são incrivelmente belas e bem construídas, como, por exemplo, a cena do lixo ou a cena em que Christian sobe as escadas e a câmera gira acompanhando a subida (que me deu um pouco de vertigem, num efeito bem curioso). Gostei da fotografia e da trilha sonora com trechos de músicas clássicas, dando a ideia de sofisticação (só na casca" mesmo). As interpretações foram excelentes: Claes Bang como Christian transmite uma imagem que nada tem a ver com sua verdadeira essência, um homem sem ética, egoísta, egocêntrico e, acima de tudo, irresponsável e imaturo; Elisabeth Moss, como Anne, está maravilhosa, demonstrando certa incoerência e um tanto de neurose na personagem; e Terry Notary está aterrador como Oleg, responsável pela cena mais icônica do filme, o jantar com o homem-macaco. O filme foi agraciado com a Palma de Ouro 2017 - para mim, merecidamente. Fruição absoluta. Recomendo.

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