• hikafigueiredo

"Um Brinde à Vida", de Jean-Jacques Zilbermann, 2014

Filme do dia (201/2020) - "Um Brinde à Vida", de Jean-Jacques Zilbermann, 2014 - Polônia, 1945. O campo de Auschwitz é esvaziado às pressas pelos nazistas. Dentre as prisioneiras está Hélène (Julie Depardieu), que marcha, obrigada por seus algozes, junto com a amiga Lily (Johanna ter Steege). Separadas no fim da guerra, Hélène busca por anos a antiga companheira de campo e dores.



Considerando a temática, esperava um filme pesado, onde dores escruciantes teriam de ser exorcizadas pelas personagens. Nada. O filme é leve e, como diz o título, surge como um brinde à vida e à superação. Não que as protagonistas não tenham seus traumas e que falar deles não seja recorrente na obra, mas tudo é tratado com leveza e sensibilidade, mesmo os trechos mais tristes de suas histórias. Na realidade, os traumas mais cimentados nas personagens aparecem, justamente, nos pequenos detalhes do filme - é o pão amanhecido que não deve ser jogado fora, mas consumido, o sachê de chá reaproveitado à exaustão ou o corpo que não ganha carnes e permanece quase esquálido. É a opção por se relacionar com outros ex-prisioneiros que carregam consigo suas duras memórias. Ainda que o filme não permita que o espectador se afaste das terríveis lembranças do extermínio do povo judeu, as personagens comemoram não apenas a questão de estarem vivas, mas, principalmente, o fato de terem, entre elas, o mais forte vínculo de amizade que se possa existir e de terem, a seu modo, superado o terrível passado. Assim, as personagens discutem e se cutucam o tempo todo em que estão juntas - isso não importa, não há discussão que possa abalar o laço entre elas. Diria, até, que este é o tema crucial da obra - a amizade inabalável. Interessante, ainda, saber que a obra é baseada na história real da mãe do diretor e que as ex´prisioneiras se mantiveram amigas até o fim de suas vidas - há, no final do filme, uma pequena cenas das verdadeiras sobreviventes, bastante tocante. A narrativa começa em 1945, na debandada do campo de Auschwitz, mas rapidamente pula para o pós guerra e, depois, para o ano de 1962, quando há o primeiro reencontro das amigas, a beira-mar. O ritmo é agradável e constante, mas sem pressa. A direção de arte de época é perfeita, assim como a fotografia brilhante e bem saturada. As atrizes Julie Depardieu, Johanna ter Steege e Suzanne Clément estão muito bem, mas Julie Depardieu se sobressai em decorrência de um maior aprofundamento de sua personagem Hélène. Achei o filme muito delicado, bastante feminino e, na medida do possível, otimista. Acho que valeu a visita, motivo pelo qual recomendo.

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