• hikafigueiredo

"Um Só Pecado", de François Truffaut, 1964

Filme do dia (296/2021) - "Um Só Pecado", de François Truffaut, 1964 - O famoso escritor Pierre Lachenay (Jean Desailly) viaja de Paris para Lisboa, onde fará uma apresentação de seu último livro. Em Lisboa, Lachenay, homem casado, pai de uma filha de doze anos, envolve-se amorosamente com a aeromoça Nicole (Françoise Dorleác). Ele volta para Paris e mantém o caso com a amante, escondendo o fato de sua esposa.





Dizem as más línguas que o filme tem um fundo autobiográfico, sendo, o personagem Lachenay, nada mais que o alter-ego do diretor. Na época do filme, Truffaut estava passando por uma crise no seu casamento em decorrência de algumas "puladas de cerca" do diretor, o que levou ao seu divórcio de sua primeira esposa. Sabendo dessa história, vejo e sinto a obra como um verdadeiro "exorcismo" dos problemas e culpas de Truffaut - ele, em momento algum, tenta "passar o pano" para seu personagem, ao contrário, tenho a sincera impressão de que ele apenas queria expurgar o peso de sua escolhas e sua culpa pelo fim do relacionamento, colocando isso na obra. Na história, ainda que a iniciativa pelo caso tenha partido do personagem Lachenay, são as personagens femininas - tanto Nicole, a amante, quanto Franca, a esposa traída - quem detém verdadeiramente o poder de decisão (no caso, mais Nicole que Franca, mas é a última quem toma a medida mais drástica quanto à sua relação com o escritor). É curioso como Truffaut não busca impor ao personagem Lachenay qualquer atributo simpático a ele além de seu talento como escritor - Lachenay é um tipo bastante comum, quase amorfo, e sua conduta é de total covardia quando confrontado, seja por quem for, sem demonstrar qualquer virtude excepcional - diria que, se isso era uma autocrítica, Truffaut foi bastante severo consigo mesmo, o que me faz crer que ele carregava uma culpa sem precedentes pelo fim do casamento. Já Nicole é uma personagem bastante direta e decidida e, mesmo que tenha cedido aos encantos (inexistentes) de Lachenay, não demonstra talento para sofredora ou responsável pelos erros alheios. Franca, por seu lado, assume o papel de esposa traída com tudo o que tem direito e seu sofrimento é palpável. Cheguei a ter raiva da personagem por alguns momentos de auto humilhação, mas um evento faz com que ela abandone a "sofrência" e tome uma atitude, ainda que por demais radical (sem spoilers). Enfim, a obra trata de infidelidade, relações extraconjugais, compromisso, afetos, mágoas e projetos frustrados. A narrativa é linear e o ritmo é moderado, adequado ao tema. Senti uma atmosfera um tanto pesada - o esforço de Lachenay para manter sua relação com Nicole em segredo chega a ser patético -, inclusive com momentos de verdadeira tensão - nesse sentido, o arco da viagem a Reims é o ponto alto da trama. Tecnicamente, o filme é impecável. A fotografia P&B que brinca com os planos detalhes, focando em rostos, mãos e mesmo objetos, criando tensão, é deliciosa. No elenco, Jean Desailly como o insosso Lachenay - o ator está ótimo no papel, não busca, em momento algum, um brilho desmerecido para o personagem; Françoise Dorleác, lindíssima, interpreta Nicole, e lhe dá todo o charme e graça que falta a Lanchenay; Nelly Benedetti interpreta Franca e ganha o filme com seu sorriso enigmático na cena final. Eu gostei bastante da obra - difícil também não gostar de algo de Truffaut!!! - e acho um filme bem interessante sobre a traição amorosa. Vale bem a pena, recomendo.

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