• hikafigueiredo

"Verão de 85", de François Ozon, 2020

Filme do dia (13/2022) - "Verão de 85", de François Ozon, 2020. França, 1985. No litoral da Normandia, o adolescente Alexis (Félix Lefebvre), de 16 anos, é resgatado pelo jovem David (Benjamin Voisin), de 18 anos, após ter seu barco virado por uma tempestade. Surge, entre os dois, uma intensa relação, com resultado imprevisível.





A delicada e tocante obra, que tem seu foco no personagem Alexis, discorre sobre a descoberta do amor e da sexualidade, a perda da inocência, a responsabilidade afetiva, a dedicação, a perda, a pulsão de morte, o compromisso, a reconstrução e a memória. Sempre sob a ótica do protagonista, a trama expõe os caminhos que levaram Alexis a cometer um crime, sem revelar, de imediato, que delito seria esse. A partir deste fato irrevelado, passamos a conhecer a história de Alexis e David, desde o seu primeiro encontro até o seu desenlace traumático. A narrativa é não linear e trabalha com três tempos distintos: o presente, momento indefinido representado pela narrativa em off do protagonista; o passado "recente", representado pelos esforços de Alexis em colocar, através da escrita, sua versão dos acontecimentos que o levaram a cometer o crime; e o passado "remoto", o "verão de 85", quando o personagem conhece e passa a relacionar com David. O ritmo é marcado, com momentos de distensão e outros mais dinâmicos. A atmosfera vai do romântico ao trágico - e isso em uma velocidade recorde. Através da história contada por Alexis - tanto na sua escrita, quanto na sua narrativa em off, que por vezes parecem se misturar - acompanhamos o surgimento de uma avassaladora paixão entre os dois jovens. Logo de saída, recebemos a informação que isso não será duradouro o que é insuficiente para abrandar o coração partido daquele espectador mais romântico - a verdade é que, lá pelo meio do filme, a gente quer mesmo é chorar e picar o coração dolorido em mil pedaços. Eu, admito, fiquei arrasada pelos acontecimentos expostos. Mas, mesmo com toda a tristeza, há uma beleza inegável na trama, o que é auxiliado pela fotografia esmerada, em especial nas cenas do casal. A trilha sonora traz pelo menos duas músicas que marcaram época - "In Between Days" do The Cure, e "Sailing", de Rod Stewart - remetendo o espectador que vivenciou o período diretamente para os anos 80. O elenco traz Félix Lefebvre no papel de Alexis, numa interpretação inspiradíssima - o personagem, que tinha uma obsessão pela morte, logo se joga, sem qualquer freio, na relação com David, deixando fluir toda sua paixão pelo rapaz; Benjamin Voisin interpreta David, um jovem com sanha de aproveitar a vida, sempre sedutor e sorridente; Philippine Velge interpreta Kate, uma moça inglesa que cai de paraquedas na história de Alexis e David; e Valeria Bruni Tedeschi interpreta a Senhora Gorman, mãe de David. O filme traça um claro diálogo com a obra "Me Chame pelo Seu Nome" (2017), trazendo temática e atmosfera coincidentes. Apesar de tristíssimo, eu gostei demais da obra, até por trazer à baila assunto que me agrada - a descoberta do amor e da sexualidade, independente de gênero ou de outros freios impostos social e culturalmente. Belo, belo. Recomendo demais, mas prepare-se para sofrer.

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