• hikafigueiredo

"Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo", de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, 2009

Filme do dia (355/2021) - "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo", de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, 2009 - Um geólogo é enviado para o interior do Nordeste para fazer um levantamento geológico acerca da região por onde será construído um canal. Durante a viagem, ele repassa sua história com sua esposa e começa a sentir o peso da solidão.





Experimental e profundamente autoral, o filme traz um recorte da realidade nos confins do Nordeste, costurando o registro documental com o roteiro de ficção baseado no diálogo interior do personagem, o geólogo que sequer o nome nos é informado. De um lado, temos a história do protagonista, que, através de sua narração em "off", lentamente nos é revelada: seu casamento fracassado, o abandono pela esposa, a solidão que o consome; de outro, temos o registro do mundo real, dos cantões do sertão, das pessoas que ali habitam, de histórias comuns, como outras tantas por aí. Em comum, a solidão, o desolamento e o abandono, tudo refletido nas imagens de um espaço geográfico seco, quase desprovido de vida. Existe, na obra, um eco de crítica social, tênue, aqui e ali, uma denúncia acerca das condições de vida do nosso povo - na desapropriação das terras do idosos, na falta de perspectiva das jovens prostitutas, no sonho de uma vida melhor da balconista. Esta crítica é implícita, quase silenciosa, sem alardes, mas muito evidente para quem assistir à obra com atenção. A narrativa é linear, porém errática, tal qual a linha de pensamento do protagonista, que oscila entre declarações de amor à esposa e revolta pelo abandono. O ritmo é bem, bem, bem lento, acompanhando os devaneios do personagem. A atmosfera é meio pesada, angustiante, profundamente intimista. O filme é carregado de uma poesia tristonha, arrancando beleza de uma realidade cinza. Da mesma forma que o personagem embrenha-se pelo interior da terra, ele se embrenha pelo interior de sua alma - o filme é bastante introspectivo e sensorial, ele foi feito para ser "sentido". O roteiro me pareceu ter sido moldado à medida em que os registros documentais foram sendo realizados, ele é sutura que dá unidade àquelas imagens e histórias. Tecnicamente, a "secura" geográfica e social reflete nas opções de fotografia e som. A fotografia é bastante granulada, muitos dos registros são feitos com a câmera em movimento, assumindo todos as imagens tremidas, as luzes "estouradas", os reflexos na lente. No outro extremo, temos diversos planos abertos fixos, prolongados no tempo até seu limite, sempre silenciosos, que causam proposital desconforto no espectador, principalmente quando o objeto são pessoas reais que estão se desnudando para a câmera. A narração em "off" abrange o filme inteiro - jamais vemos o protagonista, temos apenas a sua voz para fazer o contraponto da ficção no registro documental. O som, como a fotografia, é "seco" - as músicas são pontuais, sempre bem típicas, o som ambiente é bem aproveitado em algumas cenas, enquanto outras abraçam um silêncio perturbador. A montagem da obra segue a mesma linha e não são poucas as cenas com corte brusco, que mais parece um tapa na cara. O protagonista, do qual temos apenas a voz, é interpretado magistralmente por Irandhir Santos - não deve ser fácil tentar transmitir emoções apenas pelo tom de voz e um texto quase solto e, ator fenomenal que ele é, claro que ele consegue. Olha... eu gostei da obra, mas certamente não é para qualquer público. Há que se gostar de ousadias, de linguagem experimental, de tom (muito) autoral e há que se estar aberto para uma experiência bem diferente de cinema. Para quem gosta de riscos, eu recomendo.

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