• hikafigueiredo

"Violência e Paixão", de Luchino Visconti, 1974

Filme do dia (183/2016) - "Violência e Paixão", de Luchino Visconti, 1974 - Um idoso e respeitado professor (Burt Lancaster) mora sozinho em seu apartamento repleto de livros e obras de arte. Praticamente recluso, absorto em meio às suas obras literárias e quadros, o professor é subitamente arrancado de seu sossego quando é convencido por uma suposta marquesa (Silvana Mangano) a alugar o apartamento existente sobre o seu próprio para aquela mulher. O imóvel passa, então, a ser ocupado por Konrad (Helmut Berger), o jovem e belo amante da marquesa, além de sua filha adolescente e seu namorado, o que transformará a vida do pacato professor.





Como todas as obras do mestre Visconti, essa também caracteriza-se pela complexidade dos temas abarcados e pela extrema beleza plástica. Quanto à temática, mais uma vez temos uma mostra da decadência e hipocrisia da sociedade, bem como uma discussão sobre a família, a solidão e de maneira não tão explícita, de questões políticas. Aqui a intelectualidade (que lá pelas tantas sabemos compartilhar dos ideais da esquerda) encontra-se descolada da realidade, num idílico mundo à parte, enquanto que a sociedade é comandada por uma gente rica em dinheiro e posses, mas ignorante, sem modos, e paupérrima em valores (que também sabemos estar vinculada a ideais de direita). Entre os dois mundos, o jovem Konrad, que, por almejar o conforto da vida burguesa, precisa esconder o que tem de cultura e sensibilidade para ter espaço naquele universo quase incivilizado. Bem... esta é uma leitura.... Mas nada impede outras leituras, dentre as quais a discussão acerca da opção pela solidão como meio de se proteger do outro e de eventual sofrimento. Sim, o filme é de uma riqueza tal que possibilita várias e diversificadas leituras e interpretações - inclusive com evidente diálogo com outras obras do mestre, mais especificamente "O Leopardo", "Morte em Veneza", "Sedução da Carne" e "Vagas estrelas da Ursa". Do ponto de vista imagético, o filme é "somente" lindo e perfeito - a direção de arte fala por si: de um lado a sobriedade, bom gosto e a discrição do apartamento do professor; do outro, o espalhafato, o exagero, os excessos, de gosto duvidoso, da marquesa. A fotografia da obra, do mesmo modo, é puro esmero. A música, sempre marcante nos filmes do diretor, continua na linha clássica, desde as músicas criadas para o próprio filme, quanto às incidentais (dentre as quais, obras de Mozart) - com exceção de uma música de - pasmem - Roberto Carlos, cantada em italiano. As interpretações, perfeitas - Luchino Visconti era um exímio diretor de atores. Burt Lancaster passa ao espectador equilíbrio, sabedoria e calma, mas, também, solidão e um profundo medo de sair da zona de conforto. Silvana Mangano interpreta uma marquesa histriônica, barulhenta e inconveniente, altamente desagradável. E Helmut Berger está deslumbrante como o conflituoso e rebelde Konrad. Poderia, ainda, fazer inúmeras observações sobre a obra, mas, por correr o risco de revelar mais do que deveria e acabar jogando um spoiler qualquer no colo de quem tiver a paciência de ler, acho melhor parar por aqui. Eu amei o filme de paixão e recomendo com louvor (mas é um Luchino Visconti, é ÓBVIO que é lindo, perfeito, complexo! >>>>fan detected).

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