• hikafigueiredo

"A Luneta do Tempo", de Alceu Valença, 2014

Filme do dia (246/2018) - "A Luneta do Tempo", de Alceu Valença, 2014 - Após a morte do cangaceiro Severo Brilhante (Evair Bahia) por Antero Tenente (Servílio de Holanda), o bando de Lampião (Irandhir Santos) e Maria Bonita (Hermila Guedes) pede ajuda ao circo itinerante de Nagib (Ceceu Valença) para transportar o corpo. Nair (Krhystal), companheira do falecido, abandona o cangaço e parte com o circo, sem saber que o grupo mambembe e o bando de cangaceiros para sempre estarão ligados por sua história.





Maravilhoso!!!! É o principal adjetivo que me vem à mente ao pensar no filme. Alceu Valença - que além de dirigir o filme, ainda foi responsável pelo roteiro - acerta demais ao transpor para o cinema toda a magia da literatura de cordel. Tal qual no popular gênero literário, a obra brinca com fatos históricos, mesclando-os com fantasias e feitos heroicos. O filme é a própria imagem da cultura nordestina, perfeitamente retratada por Alceu Valença. Acima de tudo, a obra é incrivelmente poética e bastante sensorial. Não espere um filme convencional, uma história objetiva e linear - não, aqui temos inserções fantasiosas e subjetivas alternadas com a realidade, bem como temos certa alternância dos núcleos dramáticos circo/cangaço/poeta do cordel. O melhor para o espectador é deixar-se levar pela poesia da história, pela cadência das palavras (vários são os trechos rimados e declamados como no cordel) e pela música de qualidade muito bem inserida. Não bastasse o roteiro rico, cheio de "nordestinidade", a obra ainda é extremamente bem realizada. A fotografia em tons sépia e a direção de arte que valoriza as cores, saindo do insistente "amarelo" do sertão, fazem do filme um espetáculo para os olhos. Da mesma maneira, a câmera estabelece ângulos inusuais, sofisticados, e não são poucas as cenas em movimento, trazendo um ritmo envolvente à história. Temos, ainda, várias cenas de câmera na mão, fazendo o espectador participar mais profundamente da narrativa, um verdadeiro mergulho na história. A trilha sonora é maravilhosa, totalmente assinada por Alceu Valença (já deu para imaginar o quão boa ela é, não???). E, para coroar, as interpretações - Irandhir é Irandhir, para mim o melhor ator brasileiro na atualidade. Seu Lampião é multifacetado - se por um lado é um matador cruel, por outro é um amante apaixonado e alterna o amor pela vida a um incessante ódio pelos inimigos. Hermila Guedes, uma atriz excepcional, foi subutilizada no filme, sua Maria Bonita não foi aprofundada, infelizmente. Ari de Arimatéia como Severo, Evair Bahia como Severo Brilhante e Servilio de Holanda como Antero Tenente também estão ótimos. E Alceu Valença é pura poesia como o palhaço Velho Quiabo. Olha... o filme é incrível, é uma linda leitura da cultura e das tradições do Nordeste trazida para o cinema. Recomendo com carinho!

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