• hikafigueiredo

"Ainda Resta uma Esperança", de John Schlesinger, 1962

Filme do dia (319/2020) - "Ainda Resta uma Esperança", de John Schlesinger, 1962 - Victor (Alan Bates) conhece Ingrid (June Ritchie) no trabalho e logo se interessa pela moça. Eles passam a sair, na visão de Victor sem compromisso, mas, na de Ingrid, como uma relação séria. Uma gravidez indesejada fará com que Victor tenha de encarar a relação com Ingrid sob uma nova perspectiva.





O filme baseia-se no romance homônimo de Stan Barstow e integra o novo cinema britânico da década de 1960. A obra discorre sobre as relações amorosas, sobre entrega, acolhimento, responsabilidade, amadurecimento e empatia. Victor é um legítimo representante do "boy lixo", aquele homem imaturo, irresponsável e egoísta que vive para satisfazer unicamente suas próprias vontades, pouco se importando com os outros. Victor também é machista e misógino, na medida em que valoriza muito mais as companhias dos amigos homens do que a presença da namorada recém conquistada. Após alcançar sua intenção - chegar aos "finalmentes" com Ingrid -, ele perde o interesse pela moça e dela se afasta. No entanto, Ingrid engravida e Victor é chamado à responsabilidade. As tentativas de Victor em ser um pouco menos intragável e mais empático esbarram na evidente intenção da mãe de Ingrid em atrapalhar qualquer sucesso da relação. A obra mostra o lado menos agradável das relações amorosas e a necessidade do protagonista amadurecer em tempo recorde para suportar uma relação na qual não tinha, inicialmente, intenção de estar. A obra ainda trata da condição feminina em uma época anterior à revolução sexual, quando as moças tinham de "se dar ao respeito" e, quando caiam em tentação, tornavam-se mal-vistas e faladas, além de viverem obedientemente, à sombra de seus maridos. Uma coisa que me agradou na narrativa foi a empatia desenvolvida pelas mulheres da família de Victor por Ingrid - ninguém passou o pano para o machinho arrependido e, tanto a mãe, quanto a irmã, foram diretas com Victor acerca dele ser o grande responsável pela situação em que se meteu e que ele que tinha de resolver o imbróglio. A narrativa é linear e desenvolve-se com bastante cuidado, sem pressa, a partir do momento em que Victor e Ingrid se conhecem. O ritmo é lento, quase moroso, mas necessário para situar o espectador quanto as intenções de cada um do casal. Engraçado que a relação do espectador com os personagens muda ao longo da narrativa - se até o meio do filme, Victor era o foco da minha raiva, na segunda metade é a mãe de Ingrid que merece meu desprezo e é até possível ver, aqui e ali, esforço sincero de Victor para evoluir. A fotografia é P&B, bastante suave, pouco contrastada, privilegiando os muitos tons de cinza. Algumas cenas são especialmente belas, parecendo pinturas. Gostei muito do trabalho de Alan Bates e June Ritchie como Victor e Ingrid, tendo, Bates, concorrido ao BAFTA de melhor ator pelo papel. A obra foi agraciada com o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1962. Eu adorei o filme, traz uma discussão bastante rica acerca de diversos assuntos interligados, motivo pelo qual recomendo com gosto.

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