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  • hikafigueiredo

"Alice Não Mora Mais Aqui", de Martin Scorsese, 1974

Filme do dia (333/2020) - "Alice Não Mora Mais Aqui", de Martin Scorsese, 1974 - Após a morte prematura de seu marido, a dona-de-casa Alice (Ellen Burstyn) precisa tomar as rédeas de sua vida, criar seu filho Tommy (Alfred Lutter) e conseguir sustentar a ambos, retomando o antigo sonho de ser cantora.





O filme - que rendeu um Oscar de Melhor Atriz para a fantástica Ellen Burstyn - discorre sobre a emancipação feminina nos anos 70, focando nas conquistas das mulheres naquela década e no crescimento pessoal da personagem Alice. Após um prólogo que presta uma evidente homenagem ao filme "O Mágico de Oz" (1939), onde tomamos contato com a jovem Alice e seu sonho de ser uma cantora, chegamos à dura realidade da personagem adulta: casada e com um filho, tornada dona-de-casa, Alice convive com um marido grosseiro e indiferente e distante dos sonhados palcos. Quando, subitamente, o marido de Alice morre, ela terá de se sustentar e vê, nisso, a chance de retornar à carreira de cantora a qual fora obrigada a desistir assim que se viu casada. Começa, então, o caminho para o amadurecimento e a emancipação de Alice. Até a página dois. Ainda que perceba as boas intenções da obra, não há como não dizer que ela é extremamente datada e que a "emancipação" de Alice só tem lugar se comparada às mulheres da década de 50 e 60. Em, outras palavras, para realidade dos anos 2020, o que Alice conquista é menos que o mínimo. Eu, sim, vejo certa libertação de Alice quando esta consegue definir suas prioridades e impor sua determinação em cantar, mas, a própria personagem, a certa altura da narrativa diz que "precisa de um homem ao seu lado" - que raio de emancipação é essa que "precisa" de um macho a tiracolo? Então, quem, como eu, assiste ao filme esperando uma guinada revolucionária na vida da personagem e, principalmente, na forma desta encarar o mundo, errrr, bem, vai se decepcionar um tanto, pois o filme está a ano-luz de uma emancipação nos moldes de "Thelma & Louise" (1991). Em todo caso, é historicamente interessante perceber como se deram as conquistas femininas entre os anos 60 e 90, se levarmos em conta estes dois filmes. A narrativa é linear, bastante convencional e a atmosfera é amena, com trechos um pouco mais tensos. O ritmo é lento se comparado aos dramas hollywoodianos atuais e, admito, me cansou um pouco (porque não é um lento denso, é um vagaroso morno, amarrado, muito diferente de tudo o que Martin Scorsese fez posteriormente). Eu achei a fotografia meio "lavada", sem brilho ou contraste, algo comum nos filmes daquela década. A trilha sonora é interessante, ainda que igualmente datada e tenho de dizer que me identifico mais com o gosto musical de Tommy do que do elenco adulto. Nas interpretações, temos Ellen Burstyn excepcionalmente bem, tanto que foi agraciada com um Oscar - ainda que eu ache sua interpretação em "Réquiem para um Sonho" (2000) infinitamente superior; adorei Dianne Ladd no papel de Florence, recebendo o prêmio BAFTA pela interpretação; Kris Kristofferson, na minha opinião, é um ator bastante limitado e perto de Ellen Burstyn e Dianne Ladd ele consegue ficar ainda mais insignificante; Harvey Keitel interpreta o personagem Ben e já demonstra todo o seu talento; as crianças Alfred Lutter e Jodie Foster interpretam Tommy e Audrey, dois personagens insuportavelmente chatos. O filme tem um valor histórico, mas, como eu disse, não envelheceu muito bem. Eu recomendo para quem tem interesse na evolução da emancipação feminina como uma obra que mostre os primórdios desse movimento.

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