• hikafigueiredo

"O Beco do Pesadelo", de Guillermo del Toro, 2021

Filme do dia (37/2022) - "O Beco do Pesadelo", de Guillermo del Toro, 2021 - EUA, final da década de 30. Stan Carlisle (Bradley Cooper) é um homem sem rumo que se junta a um circo itinerante como uma espécie de "faz-tudo". Rapidamente, ele se aproxima de Zeena (Toni Collette) e de Pete (David Strathairn) que, juntos, desenvolveram um show de mentalismo, com claro intuito de aprender seus truques. Paralelamente, ele se enamora de Molly (Rooney Mara), uma tímida jovem, igualmente agregada ao circo.





Sou bastante fã do cinema de Guillermo del Toro, gostando demais da espécie de fantasia sombria que, com frequência, paira sobre seus filmes. Talvez tenha sido justamente esse fato que tenha, de certo modo, estragado minha experiência quanto à presente obra. Fui assisti-la com uma expectativa inflada, o que, certamente, contribuiu para a sensação de decepção que me tomou do meio para o fim do filme. Baseada no romance homônimo de William Lindsay Gresham, de 1946, a obra é um claro reflexo da atmosfera depressiva e desesperançosa dos anos de guerra recém vividos pelo autor. Discorrendo sobre um verdadeiro submundo do entretenimento que se valia do desespero de seu público-alvo, a história acompanha a trajetória do personagem Stan Carlisle, um hábil vigarista que vê, nos shows de adivinhação, uma forma de ganhar dinheiro fácil de ricaços problemáticos e repletos de culpas e traumas. Com facilidade em reconhecer características de suas vítimas, o embusteiro se depara com Lilith Ritter, uma psicóloga que, como ele, também tem a habilidade de "ler" as pessoas, surgindo certa tensão reflexa entre eles. A narrativa é linear, em ritmo moderado. A atmosfera é pesada, trazendo aquele elemento sombrio tão característico do diretor. Se no arco do circo o desalento contamina até mesmo a ambientação, no arco das apresentações em ambientes requintados, o desespero emana do próprio público - os tais ricaços marcados pela culpa mencionados logo acima. De qualquer forma, esteja onde estiver, Carlisle sempre opera através da angústia e dor alheias. Tecnicamente, o filme é absolutamente impecável. A fotografia muito contrastada, em tons quentes, colaboram na criação de uma atmosfera lúgubre, remetendo aos filmes noir da década de 40. Da mesma maneira, a trilha sonora densa contribui para o "peso" da produção. O elenco, estreladíssimo, mostra-se afiado, muito embora eu tenha certa dificuldade em aceitar Bradley Cooper no papel de protagonista, certamente pela frequência com que ele é colocado em papeis de "mocinho", algo totalmente diverso do seu personagem neste filme - Carlisle é, evidentemente, um homem sem qualquer escrúpulo, um canalha por quem, ao longo da narrativa, acabamos desenvolvendo certa simpatia; Bradley Cooper constrói com cuidado o personagem, mas eu jamais perdi de alcance sua aura de bom-mocismo adquirida em outras obras. Cate Blanchett é uma atriz fabulosa, mas achei que ela pesou um pouco a mão na personagem Lilith Ritter, que está no limite extremo da interpretação, quase um clichê, algo muito incomum para a atriz. Sublime, para mim, está Toni Collette como Zeena, uma médium picareta, mas que guarda, ainda, certo caráter, que a impede de cruzar certos limites - e Collette acerta, na medida, a personagem . Rooney Mara também está muito bem como a sensível Molly - eu acho que a atriz tem a maior cara de "cachorro que caiu do caminhão de mudança", que vem muito a calhar para a personagem. David Strathairn é outro que chega matando como o personagem Pete, um artista circense destruído pelo alcoolismo, mas, como sua esposa Zeena, norteado por limites bem demarcados. Strathairn é um ator fantástico que, na minha opinião, merecia mais reconhecimento do que ele tem recebido e seu Pete desperta, desde o início, toda a empatia e compaixão do espectador. No elenco, ainda, Willen Dafoe como Clem, Ron Perlman como Bruno, Richard Jenkins como Ezra e Peter MacNeill como Juiz Kimball. Ah, mas eu, praticamente, só teci elogios, onde está, então, a decepção? Na ausência de alma da obra. Eu não consegui me envolver com o filme em momento algum, eu o assisti, mas não "entrei" na história, não "senti" a história, foi uma experiência completamente racional - e, para mim, é essencial a questão sensorial de um filme, daí a decepção. O filme concorre a quatro categorias do Oscar (2022) - Melhores Filme, Fotografia, Figurino e Design de Produção; três do BAFTA (2022) - Melhores Fotografia, Figurino e Design de Produção; e pelo menos umas oito categorias do Critics' Choice Awards (2022) (demais para enumerá-las). Apesar de conseguir ver suas virtudes, seria exagero dizer que gostei do filme, mas talvez tenha sido uma questão pessoal minha. Não vou dizer para ninguém deixar de vê-lo, mas tampouco vou festejá-lo. Vejam por sua conta e risco.

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