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  • hikafigueiredo

“Conheço Bem Essa Moça”, de Antonio Pietrangeli, 1965

Filme do dia (71/2023) – “Conheço Bem Essa Moça”, de Antonio Pietrangeli, 1965 – Adriana Astarelli (Stefania Sandrelli) é uma moça que aspira tornar-se atriz. Com esse intento, ela envolve-se em diversas situações sem perceber o seu próprio desgaste.





Nesse drama de Antonio Pietrangeli, acompanhamos o cotidiano de Adriana, uma jovem bela e livre que sonha em se tornar atriz de cinema. Apesar de sua vida pouco convencional para a época – a moça acumula namorados e amantes, entregando-se, apaixonadamente, a cada um deles -, ela se mostra ingênua e bem-intencionada e acaba sendo presa fácil para diversos tipos de canalhas e abusadores, muitas das vezes sem sequer perceber seu papel de vítima na situação. Ainda que eu entenda que o filme foi realizado em um contexto histórico muito diferente do presente sendo, portanto, fruto daquele, impossível não pontuar uma leitura atual da obra: a história retrata o profundo machismo em que as mulheres viviam naquele tempo (ainda vivemos, mas um pouco mais atenuado), suportando diversas formas de abuso e silenciamento, além de viverem sob eterno julgamento da sociedade. Neste sentido, temos uma passagem em que Adriana envolve-se com um criminoso, mas é perceptível que o maior julgamento está sobre os ombros da protagonista que se deixou envolver e não sobre o infrator. Confesso que não gostei muito da obra, justamente por perceber essa carga de julgamento atroz que recai sobre a personagem – achei o filme moralista, inclusive em seu desfecho, o qual, sinceramente, detestei. Além disso, há uma passagem em que a personagem se envolve com um homem negro e tive a sensação de que a intenção do diretor era mostrar o quão baixo ela desceu, num caso patente de racismo do mais abjeto (pode ter sido uma leitura equivocada minha, mas o desenrolar da história aponta para essa direção). Enfim, tive sérias objeções à obra. A narrativa é linear, em ritmo moderado. A atmosfera, para mim, foi um pouco perturbadora – por diversas vezes Adriana é feita de trouxa, ridicularizada, julgada, abusada, destratada e minha sororidade me fez sentir profundo desconforto ao longo de inúmeras passagens. O filme traz uma fotografia P&B suave, com algumas poucas cenas em que a luz se torna um pouco mais dura e contrastada. Novamente, temos uma música diegética (que existe no próprio universo ficcional) prevalecente, ainda que divida espaço com a trilha musical incidental. Aliás, a obra traz inúmeras músicas de sucesso da época, como a célebre “Roberta”, de Pepinno Di Capri, dentre outras, quase todas italianas. Destaque para o figurino de Adriana, que se esforça para parecer sempre elegante e sofisticada. Adorei o trabalho de Stefania Sandrelli como Adriana – a personagem consegue ser sedutora, licenciosa e dada a ter muitos parceiros, ao mesmo tempo em que se mostra profundamente ingênua e facilmente manipulável. O elenco de famosos é grande, todos em pequenas pontas: Ugo Tognazzi, Jean-Claude Brialy, Franco Nero, Vittorio Gassman, só para citar os mais célebres. Destaque para a triste cena do cinema, quando Adriana é ridicularizada, e para a cena em que ela percebe que seu interlocutor está falando dela, muito embora mencione outro nome (único momento em que Adriana se percebe criticamente). Destaque também para a cena final, o triste desfecho da protagonista. Bom... muito embora veja muitas qualidades técnicas na obra, em especial no que tange as interpretações do elenco, não curti o teor moralista do filme. Ainda assim, acho que deva ser visto com um olhar crítico. Recomendo com essa ressalva.

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