• hikafigueiredo

"De Tanto Bater, Meu Coração Parou", de Jacques Audiard, 2005

Filme do dia (457/2020) - "De Tanto Bater, Meu Coração Parou", de Jacques Audiard, 2005 - Thomas Seyr (Romain Duris) trabalha no corrupto e brutal setor imobiliário, ocupação que aprendeu com seu violento e desonesto pai (Niels Arestrup). No entanto, entre os golpes, armações e coerções praticados no trabalho, Thomas continua praticando piano, demonstrando um grande talento herdado de sua mãe. Ao ser chamado para passar por uma audição , Thomas terá de se decidir por qual caminho trilhar.





A interessante obra trabalha com questões ligadas às heranças familiares, aos afetos e à capacidade humana de escolher seu destino, decidindo se segue em frente em uma escolha ou alterando um caminho anteriormente trilhado. O personagem Thomas divide-se entre o trabalho herdado do pai - ocupação rude, onde, frequentemente, ultrapassa os limites da ética e da lei - e o talento recebido da mãe - onde ele precisa se conectar com suas emoções e sua sensibilidade. Em busca de uma indicação como concertista, Thomas passa a praticar, com regularidade, o piano com a ajuda de uma pianista chinesa recém-chegada a Paris, mas, para ter alguma chance, precisará guardar seus "monstros interiores" e trazer à tona uma delicadeza enterrada há muito. O norte do filme estabelece-se à partir desta dicotomia: trabalho/herança paterna/energia masculina/violência de um lado e arte/herança materna/energia feminina/sensibilidade de outro. O conflito imposto é rico, mas acho que o diretor pesou um pouco a mão na polarização ao optar por mostrar todos os colegas de trabalho de Thomas como uns gorilas incivilizados, machistas e violentos e, no outro extremo, a doce e delicada pianista chinesa (o fato da moça não falar francês é uma clara metáfora da dificuldade de Thomas em compreender essa existência longe da vilania e da violência e de se conectar com esse eu sensível e afeito às artes). A narrativa é linear, evidente e pouco sutil e o ritmo, bem marcado. Tive certa dificuldade em estabelecer empatia pelo personagem central - apesar deste revelar essa ânsia por mudar de caminho, ele ainda tinha muito da verve troglodita de seu pai e, por vezes, tive a sensação de que ele era um rinoceronte tentando tocar piano. Também achei que o filme deixou algumas pontas relacionadas a cenas que não disseram muito a que vieram, como a relação de Tomas com Aline e seu reencontro com Christinne (é possível que o diretor tenha incluído tais cenas para mostrar a forma um tanto patife como Thomas se relacionava com as mulheres em geral, mas não tenho bem certeza). A musicalidade do filme também mostrou-se polarizada: de um lado, o gosto do personagem por música eletrônica, que ele escuta todas as vezes em que participa de alguma negociação de trabalho; e de outro, a prática do piano que o leva a escutar, reiteradamente, a música clássica. Acerca do elenco, curto bastante o trabalho de Romain Duris (o que me levou a ver esta obra, por sinal) - eu o vejo como um ator muito intenso, que assume muito seus personagens e que tem certo gosto por desafios, personagens temperamentais ou em crise, entregando-se, com fervor, a eles. Nesta obra, mais uma vez ele mostra essa intensidade, interpretando um Thomas bastante conflituoso. Do restante do elenco, só conhecia alguma coisa de Emanuelle Devos, que, aqui, interpreta Christine. Acho que falta uma certa sutileza no filme, mas isso não chega a estragá-lo. Fiquei satisfeita em tê-lo assistido e recomendo para quem gosta de cinema francês.

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