• hikafigueiredo

"Dente Canino", de Yorgos Lanthimos, 2009

Filme do dia (220/2018) - "Dente Canino", de Yorgos Lanthimos, 2009 - Três jovens irmãos são mantidos enclausurados em sua grande e confortável casa por seus pais, sem qualquer contato com o mundo exterior. As visitas esporádicas de Christina (Anna Kalaitzidou), jovem contratada para satisfazer sexualmente o único irmão do sexo masculino, trarão conflito para as relações estabelecidas entre os membros daquela família.





OMG!!!! Que filme bom "pra porra"!!!! Doentio, perverso, perturbador.... e bom, bom demais!!!! A obra discorre sobre dominação/submissão, controle, perda da inocência e doutrinação. Sob a ótica equivocada e doente dos pais, em especial do pai, o qual estabelece o controle rigoroso dos filhos, inadmitindo qualquer mínima rebeldia dos jovens, o confinamento seria uma forma de proteger os filhos dos "males do mundo". Os filhos, como crianças grandes, agiam inocentemente em relação a tudo, completamente despreparados para qualquer contato com o mundo. E é na manutenção dos filhos nessa inocência forjada, na ignorância relativa à vida, na incapacidade de se defenderem, que reside a maior perversidade do filme. A obra é, ainda, perversa no sentido da corrupção moral da família, na degeneração inconsciente dos jovens (mas não dos pais), com cenas que certamente causarão mal estar aos mais pudendos (sem spoilers). Cabe ressaltar a habilidade do diretor Yorgos Lanthimos em criar realidades paralelas, mundos com uma lógica torcida, que causam estranhamento no espectador e evidente incômodo no público, um misto de angústia e horror, uma vontade de fugir daquilo aliada à curiosidade mórbida de ver a onde aquilo vai parar. O filme utiliza, em muitas cenas, o expediente de manter a câmera parada, recortando os personagens - em cena, apenas o tronco dos atores, cortando suas cabeças, de forma a desumanizar os personagens (isso foi repetido na obra "Miss Violence", de Alexandros Avranas, 2013, outro filme grego). A fotografia da obra é chapada, meio lavada, deixando claro que se evita qualquer distração em relação à narrativa - não, a fotografia não pode chamar a atenção, deve passar despercebida. Da mesma maneira, não há trilha sonora e os únicos momentos em que aparecem algumas músicas, elas estão inseridas na história - esse silêncio é também incômodo e contribui para a atmosfera de estranhamento da obra. As atuações dos atores são robóticas, não naturais, desprovidas de emoções genuínas, principalmente as dos filhos - não interprete essa característica como defeito, ela foi minuciosamente pensada e é um artifício que foi reutilizado em outras obras do diretor ("O Lagosta" e "O Sacrifício do Cervo Sagrado"), e, olha, funciona!!!! Neste âmbito, ressalto o trabalho de Angeliki Papoulia como filha mais velha, Christos Passalis como filho do sexo masculino e Mary Tsoni, como filha caçula - ótimos na concepção da ideia. Queria escrever muito mais, mas vai ser impossível fugir dos spoilers e se eu escrever mais uma linha, ninguém vai ler essa bíblia... :/ A obra é tão boa que foi indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e foi agraciada com o prêmio Un Certain Regard, em Cannes. Filme fodástico, recomendo muito!!!!

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