• hikafigueiredo

"Festim Diabólico", de Alfred Hitchcock, 1948

Filme do dia (23/2022) - "Festim Diabólico", de Alfred Hitchcock, 1948 - Dois estudantes - Brandon Shaw (John Dall) e Phillip Morgan (Fraley Granger) - assassinam friamente o colega David Kentley (Dick Hogan), apenas para provarem para si mesmos que conseguiam fazê-lo, imaginando o crime ideal. Logo após o assassinato, a dupla comemora o feito dando uma recepção na sua casa e usando, como mesa, a tampa do baú onde o corpo está escondido. Entre os convidados, a noiva da vítima, Janet Walker (Joan Chandler), e seu pai. No entanto, um terceiro convidado, o Professor Rupert Cadell (James Stewart), começa a desconfiar dos anfitriões.





Baseada em uma peça teatral de autoria de Patrick Hamilton, por sua vez inspirada em um assassinato real, a obra é um thriller psicológico experimental do diretor. Ainda que a história seja bastante simples, sem qualquer complexidade, reviravoltas ou invencionices, formalmente o filme exigiu verdadeira "ginástica" da produção, vindo daí seu experimentalismo, isso porque a obra simula a história em tempo real e em um único plano-sequência. Veja bem, eu disse SIMULA, pois, na realidade, o diretor precisou usar de estratagemas para garantir as emendas da montagem, uma vez que os rolos de filme tinham uma duração de tempo limitada, exigindo, portanto, a troca de rolos e as mencionadas emendas. O diretor conseguiu isso fazendo com que a câmera passasse por fundos escuros, onde os cortes eram ocultados - pelas minhas contas foram cinco cortes ocultos e somente dois cortes evidentes, um deles necessário para garantir o impacto da cena. Além disso, o "tempo real" foi acelerado - a duração do jantar é menor do que seria necessário, bem como a do pôr-do-sol, o que passa desapercebidamente pela percepção do público. Evidentemente, em se tratando de um suposto "tempo real", a narrativa é linear, em ritmo moderado - para dar a ideia de ritmo sem quase qualquer corte visível, o diretor precisou fazer uso de uma câmera ágil e "sinuosa", que passeia pelo ambiente e por entre os personagens, afastando-se ou aproximando-se deles, de forma a criar diferentes "planos" dentro do mesmo aparente plano-sequência. A atmosfera é de tensão crescente, já que o espectador acompanha o lento despertar da dúvida no personagem Rupert, aumentando, a cada minuto, a probabilidade dos assassinos serem descobertos. Cabe mencionar que a história traz uma questão ética relacionada ao "poder fazer", no sentido de "ter capacidade", e o "dever fazer". Também discute-se uma plausível sugestão de homossexualidade entre a dupla de amigos assassinos, o que jamais teria sido abertamente admitido na época por ser um tema muito controverso na ocasião. Com exceção de uma pequena cena inicial (responsável pelo primeiro dos dois cortes aparentes), o restante da história se passa em um único e claustrofóbico ambiente, o que exigiu, ainda, árduo trabalho das equipes de produção e direção de arte para trabalhar com a câmera em constante movimento - reza a lenda que as paredes que limitavam o ambiente eram móveis e precisavam constantemente ser removidas para dar passagem à câmera. O elenco traz um dos "queridinhos" do diretor (e do público norte-americano... e de mim também!), o ator James Stewart no papel do Professor Rupert - o ator notabilizou-se por seus personagens éticos e corretos (o Tom Hanks da época) e aqui não foi diferente; seu personagem, além de correção, carrega uma perspicácia incomum, capaz de pegar, no ar, as pistas lançadas pelos assassinos. No papel da dupla de matadores, John Dall como Brendon e Farley Granger como Phillip - enquanto o personagem Phillip mostra-se quase arrependido e sente algum remorso, Brendon, ao contrário, regozija-se de seu feito, não demonstra qualquer arrependimento e ainda se sente tão seguro a ponto de convidar o antigo professor para a reunião, num perfil bastante psicopata. Gostei da interpretação dos dois atores, em especial, o trabalho de John Dall. Completam o elenco Joan Chandler como Janet, Cedric Hardwicke como o pai da vítima, Constance Collier como tia do assassinado, Douglas Dick como Kenneth e Edith Evanson como Sra. Wilson. Eu gosto muito dessa obra e admiro as soluções encontradas pelo diretor para levar a termo seu projeto, encontrando meios de resolver os dilemas surgidos durante as filmagens. Além disso, gosto do clima de tensão crescente dentro daquele ambiente confinado. Por tudo o que eu mencionei, recomendo muito o filme!

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