• hikafigueiredo

"Flor do Equinócio", de Yasujiro Ozu, 1958

Filme do dia (58/2020) - "Flor do Equinócio", de Yasujiro Ozu, 1958 - Setsuko (Ineko Arima) está apaixonada e quer se casar com Tanaguchi (Keiji Sada). No entanto, seu pai (Shin Saburi) não aprova o casamento por amor e quer escolher o futuro marido da filha, o que gera um conflito entre os dois.





A bela obra de Ozu retrata o conflito geracional entre pais e filhos, focando na tradição cultural japonesa dos casamentos arranjados em contraposição aos relacionamentos românticos "por amor". No entanto, ao fechar nesse assunto, o diretor ainda esbarra em uma série de outras questões, tais como o machismo, a tradição de submissão das esposas e filhos aos patriarcas na cultura japonesa, a hipocrisia na sociedade, a dificuldade de pais em aceitarem a independência dos filhos e o consequente abandono do lar paterno para seguirem suas vidas, dentre outros temas relacionados à família e à sociedade japonesas. É bastante interessante ver como Ozu desenvolve os personagens, em especial o pai da família, que mostra-se contraditório, autoritário, machista, inflexível, mas que é facilmente "enrolado" pela sobrinha por afinidade Yukiko, que dá as maiores "voltas" no velho. Aliás, um diferencial da obra em relação a tudo o que eu vi até hoje de Ozu é um fundo cômico que o filme tem - fundo cômico para os padrões japoneses, claro, nada que se aproxime minimamente do que chamamos de comédia no ocidente - e que se mostra, especialmente, nas figuras das personagens Yukiko e sua mãe Hatsu. Algo que me incomodou um tanto foi ver a relação entre o patriarca e sua esposa - a submissão da mulher na cultura japonesa é algo difícil de acatar para qualquer mulher independente das sociedades ocidentais (não só a submissão, acho que a forma contida de se expressar da cultura japonesa, principalmente no que tange às mulheres e aos jovens é - ARGH!!!! - complicado de aceitar para mim que tenho uma "alma meio italiana" e falo muito, alto e veemente!!! rs). Com todas estas questões tratadas, a obra é um belíssimo estudo da sociedade japonesa da época, num momento de transição entre antigas tradições milenares e novos costumes surgidos da interação daquela cultura com a ocidental. O filme segue o ritmo usual do diretor - lento, beeeeem lento, tudo acontece seguindo o comedimento da cultura japonesa, nada é feito ou dito de forma arrebatada. Gostei demais do ator que interpreta o patriarca - Shin Saburi - que soube mostrar as contradições do personagem de maneira natural e não "forçada"; Kinuyo Tanaka (atriz maravilhosa de várias obras de Mizoguchi, dentre as quais "Contos da Lua Vaga" - 1953 - e "Oharu - A Vida de Uma Cortesã" - 1952) interpreta a submissa esposa do patriarca - ela é incrível!!!!; Ineko Arima também está muito bem na obra (ainda que seja um pouco ofuscada pelos intérpretes dos seus pais); ótimo o "núcleo cômico" formado pelas atrizes Fujiko Yamamoto como Yukiko e a veterana Chieko Naniwa como sua mãe. A obra foi uma das que eu mais gostei do diretor, apesar de não ter o mesmo renome que outras tantas. Recomendo e muito!

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