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  • hikafigueiredo

“Hanami – Cerejeiras em Flor”, de Doris Dörrie, 2008

Filme do dia (64/2023) – “Hanami – Cerejeiras em Flor”, de Doris Dörrie, 2008 – Trudi (Hannelore Elsner) é casada há muitos anos com Rudi (Elmar Wepper), com quem tem três filhos já adultos. Ela é informada de que seu marido sofre de uma doença terminal, coisa que ele ignora. Ela sonha em viajar com ele para o Japão, mas antes disso, eles viajam para Berlim para ver seus filhos e netos e, durante a viagem, Trudi falece repentinamente. Rudi, inconformado, percebe que a impediu de realizar seu maior sonho e, para compensar, decide viajar para o Japão, levando os sonhos da esposa consigo.





É com extrema delicadeza que este filme trata de temas universais, alguns bastante dolorosos: a efemeridade da vida, a impermanência de tudo, a dor da perda, a busca pelo outro, o amor como diálogo profundo entre dois indivíduos com sonhos e expectativas diferentes, a dedicação necessária em uma relação a dois, o arrependimento e a culpa, as relações familiares, o afeto sincero entre aqueles que se compreendem, dentre outros assuntos bastante subjetivos. A obra traz para o espectador uma disposição familiar complexa: de um lado o casal, já idoso, marcado pela rigidez de Rudi – o personagem não aceita, nem gosta de mudanças e tem um apego quase patológico pela rotina; de outro, os filhos do casal, que partem do lar paterno para longe para fugirem da influência dos pais. Quando o casal resolve visitar a família, encontra filhos atarefados e sem nenhuma vontade de encontrá-los. Quando Trudi morre subitamente, Rudi acaba contatando mais profundamente a esposa, entende suas necessidades e expectativas e percebe que ele foi um peso limitador dela. Aqui, a dor da perda abre espaço para a mudança em Rudi, que passa a aceitar e acolher a esposa melhor do que quando ela estava viva, o que faz com que ele parta para uma jornada de descobrimento – da esposa e dele próprio – através do Japão. A obra é muito sensível e extremamente sensorial, é daqueles filmes que “abre” nossa capacidade de sentir, de forma que ele é vivenciado como um todo, muito mais do que apenas “visto”. Apesar de tratar de questões muito tristes, não senti uma tristeza profunda na história – não, é uma história muito bonita de amor, dedicação e transformação. A narrativa é linear, em ritmo lento. A atmosfera é de respeitosa melancolia, desde o começo até o desfecho. É um roteiro repleto de emoções, que me remeteu às histórias bergmanianas. Gostei demais das referências infinitas à cultura japonesa, em especial ao butô, uma dança contemporânea do Japão, bastante expressiva, pela qual a personagem Trudi tem fascinação e que Rudi tenta entender. O filme tem uma fotografia delicada e discreta, em cores suaves e sem grandes peripécias, como se buscasse não tirar a atenção do espectador da narrativa; achei maravilhosa a pouca presença de música incidental, o que, para mim, faz com que eu entre em contato com meus sentimentos reais e não com uma emoção manipulada pela música (algo tão comum no cinema hollywoodiano); maravilhosas, também, as muitas cenas de butô, manifestação artística incrível, com destaque para a apresentação de Tadashi Endo; belíssimo desenho de produção que acerta tanto nas cenas das metrópoles (Berlim e Tóquio, inquietas e agressivas), quanto nas cenas pacatas do interior (da Alemanha e do Japão, ambas expressando muita paz e introspecção). No elenco, um trabalho memorável de Elmar Wepper e Hannelore Elsner – ambos conseguem expressar de uma forma extraordinária seus sentimentos e aflições internos sem ter de fazer uso de “caras e bocas”; ao contrário, os dois são bastante econômicos nas expressões faciais, sem perder, no entanto, a profundidade das emoções envolvidas. Também merece elogio o trabalho de Evelyne Macko como a jovem Yu, capaz de conectar Rudi com uma série de sentimentos interiores dele e de Trudi. O filme, excepcional, tem clara inspiração no espetacular “Era Uma Vez em Tóquio” (1953) e dialoga, minuciosamente, com um filme japonês realizado no mesmo ano, o incrível “A Partida” (2008). A obra é maravilhosa e merece demais ser visitada. Amei e digo que é essencial.

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