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  • hikafigueiredo

“J. Edgar”, de Clint Eastwood, 2011

Filme do dia (27/2024) – “J. Edgar”, de Clint Eastwood, 2011 – EUA, últimos anos de década de 1910. Um jovem e promissor funcionário do governo é escalado para coordenar a criação de um órgão de investigação federal, o FBI. Ao longo de quarenta e oito anos, este funcionário – J. Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio) – esteve à frente do FBI e, muito embora tenha levado o órgão ao reconhecimento mundial, também teve condutas ocultas e reprováveis, além de guardar, a sete chaves, um segredo que, à época, poderia arruinar sua reputação.




 

Este drama biográfico refere-se a uma das personalidades estadunidenses mais controversas do século XX: J. Edgar Hoover, o todo poderoso criador e diretor, por quarenta e oito anos, do Federal Bureau of Investigation, o FBI. Ao longo do filme, acompanhamos o nascimento do FBI, os esforços em levar reconhecimento ao órgão, as atividades lícitas e ilícitas promovidas por ele e a validação e o respeito alcançados, finalmente, pelo órgão, após anos de existência e trabalho. Mas o cerne concentra-se mesmo na figura de J. Edgar Hoover, aqui visto por uma ótica romantizada e até mesmo especulativa. No filme, J. Edgar surge como um homem obstinado, obcecado por teorias da conspiração e receios relacionados à pátria, workaholic ao extremo, com uma ética bastante flexível e uma incomensurável sede de poder e de reconhecimento. Claramente, Hoover acreditava que “os fins justificam os meios” e, por incontáveis vezes, usou isto a seu favor, promovendo ações no mínimo antiéticas – quando não completamente ilegais – dentro do FBI. No entanto, ao mesmo tempo em que surge como um indivíduo forte e poderoso no ambiente profissional e perante a sociedade, o filme também retrata sua quase submissão a uma mãe narcisista, autoritária, cruel e preconceituosa. Enquanto figura influente e preponderante nos altos escalões do governo, J. Edgar Hoover despertou, a uma só vez, admiração e desprezo na população – o mesmo ocorrendo com o espectador. Mas, a outra faceta do personagem – a de um homem dominado pela mãe, solitário e mesmo profundamente infeliz por não poder assumir uma especulada homossexualidade (em tempo: essa hipotética  homossexualidade de Hoover não é unânime entre seus biógrafos; existe uma parcela de biógrafos que a tem como certa, outros que a acreditam provável e alguns que rejeitam ferozmente essa possibilidade; no filme, no entanto, assume-se que Hoover era um homossexual enrustido que vivia um amor platônico – e tristemente correspondido - por seu braço direito, Clyde Tolson) – acaba por despertar  uma certa comiseração no público, o que freia os sentimentos mais negativos surgidos por suas condutas autoritárias e antiéticas. Assim, o filme traz complexidade e humanidade para o personagem, de forma que é difícil dar-lhe qualquer forma. A narrativa é não-linear e intercala diferentes momentos da vida e carreira do protagonista. O ritmo é de lento a moderado, principalmente no começo da obra, o que a torna, por vezes, um pouco aborrecida. A linguagem utilizada é bastante convencional e, se há alguma mínima ousadia, encontra-se na montagem não-linear. A fotografia, como a linguagem cinematográfica usada, é também bem tradicional – muitos planos médios, posições de câmera pouco criativas ou ousadas, câmeras quase sempre fixas. Achei a fotografia um pouco escura, ainda que isso não prejudique a obra. Por outro lado, o trabalho de maquiagem pode ser considerado de sofrível a desastroso – o envelhecimento dos personagens não convenceu, eles pareciam estar com uma máscara deles próprios (bom, em última instância, era exatamente isso). O elenco traz um aplicado Leonardo DiCaprio como J. Edgar Hoover – ele consegue exprimir a complexidade do personagem, fazendo com que tenhamos os mais diferentes sentimentos por Hoover (dos mais elevados aos mais reprováveis); como a mãe autoritária de Hoover, a sempre fenomenal Judi Dench – nem preciso tecer maiores comentários, pois ela não erra nunca; como a secretária Helen Gandy, uma Naomi Watts subaproveitada – a personagem não exige quase nada da atriz e ela pouco pode mostrar seu talento; como o suposto objeto de amor do protagonista, Clyde Tolson, o belíssimo Armie Hammer, o qual ainda não havia caído em desgraça por conta de seus hábitos sexuais pouco salutares. Curiosidade: temos a atriz oitentista Lea Thompson em uma pequena ponta como Lela Rogers e o então desconhecido Adam Driver como figurante (com umas três falas, no máximo). Apesar de ter gostado no geral, achei o desenvolvimento do filme um pouco irregular, com momentos muito arrastados e uma romantização extrema do personagem. Em todo caso, achei válido. Recomendo com ressalvas.

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