• hikafigueiredo

"Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia", de Hector Babenco, 1977

Filme do dia (307/2020) - "Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia", de Hector Babenco, 1977 - Brasil, década de 70. Lúcio Flávio (Reginaldo Faria) se torna o maior assaltante de bancos do país, realizando assaltos audaciosos e fugas recorrentes do cárcere, até ser detido e revelar a participação de policiais em seus esquemas.





Apesar de levar o nome do assaltante Lúcio Flávio e acompanhar de perto suas ações criminosas, o filme é mais sobre a corrupção policial e sobre as relações espúrias existentes entre o poder público e o mundo do crime, com o advento do grupo de extermínio "Esquadrão da Morte", formado por policiais e delegados, do que sobre a bandidagem em si. Lúcio Flávio surge quase como um anti-herói, pois revela ter muito mais decência e dignidade do que a parte podre da polícia que mantinha contato com ele e que era, antes de tudo, traiçoeira, covarde e cruel. Curioso que o filme não pôde usar os nomes reais dos policiais envolvidos nos crimes, mas usou os nomes verdadeiros dos criminosos que morreram em suas mãos. Como apareceria anos depois em "Tropa de Elite" (2007), também temos uma mostra "delicada" da violência policial e da forma "carinhosa" que suspeitos e autores de crimes eram tratados pelos agentes da lei. O tema é interessantíssimo e o roteiro consegue revelar muito, ainda que se proteja através de nomes fictícios (senão já viu, até logo Hector Babenco). A narrativa é linear e a ousadia encontra-se somente no tema, pois o formato da obra é bem tradicional. O ritmo é ágil e o clima é de tensão, pois, desde o princípio, a figura de Lúcio Flávio é colocada de maneira "simpática", dentro do possível, ao contrário da imagem dos policiais corruptos, sempre retratados como ... policiais corruptos, ou seja, a escória do poder público (ali, lado a lado com os políticos corruptos). A qualidade técnica, como era comum nos filmes da época, deixa bastante a desejar, lembrando-se de que aqui não estamos falando de um filme do movimento marginal, onde a má qualidade de imagem e som era opção estética e fazia parte da linguagem de protesto. Em suma, a qualidade técnica era ruim por falta de $$$$ mesmo. A fotografia, meio lavada e sem nuances, o som direto abafado e uma edição de som sofrível (até fala sem sincro rolou) dão a tônica. As interpretações, por outro lado, mostraram-se bastante boas, com destaque para o ótimo Reginaldo Faria como Lúcio Flávio e Paulo César Pereio como o policial Moretti (sempre que queriam alguém asqueroso chamavam o ator... coitado ô sina...). No elenco, ainda, Ana Maria Magalhães como Janice, Milton Gonçalves como 132, Ivan Cândido como Bechara e Lady Francisco como Lídia. Participações especiais de três monstros - Grande Otelo, José Dumont e Stepan Nercessian, todos ótimos em suas pontas. O filme é bem bacana, viu, melhor do que eu imaginava e toca em um assunto delicado da nossa realidade. Recomendo bastante.

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