• hikafigueiredo

"Lilian M: Relatório Confidencial", de Carlos Reichenbach, 1975

Filme do dia (14/2019) - "Lilian M: Relatório Confidencial", de Carlos Reichenbach, 1975 - Lilian, ex-Maria (Célia Olga), narra, para uma entrevista, suas memórias, desde sua vida no campo com marido e filhos, até sua completa libertação da dominação masculina.





Desde a época da faculdade tenho fascínio pelo Cinema Marginal e há tempos não assistia a nada deste movimento. Boa parte do cânone do Cinema Marginal é encontrada nesta obra - da temática aos preceitos estéticos. Com relação ao conteúdo, o Cinema Marginal veio como uma transgressão, fazendo uma crítica e uma contraposição ao momento político que o país vivia nos anos 60 e 70. Nesta obra, a subversão veio através da temática da libertação da mulher, em especial no que tange à sua sexualidade, mas, há ainda, em pelo menos um ou dois trechos, situações que remetem às questões políticas (com destaque para a menção pouco sutil à tortura por eletrochoque, aqui transfigurada em fetiche sexual). A submissão da mulher ao homem, o machismo e a misoginia são escancarados no filme e a verdadeira libertação da personagem-título só vai acontecer nos minutos finais da narrativa (sem spoilers). Como todos os filmes do movimento, a intenção era chocar o público, arrancá-lo de sua letargia, balançar as estruturas socialmente constituídas - e a temática sexual contendo sugestões de incesto, homossexualidade, prostituição, dentre outros, com certeza atingiu seus objetivos nos idos de 1975. Esteticamente, a obra também seguiu os preceitos do movimento - a fotografia "suja", por oras escura demais, em outros momentos "estourada"; o desleixo com a forma; o som quase inaudível, repleto de cortes bruscos e "ruídos"; a linguagem chula; o deboche; a atração por imagens repulsivas e chocantes; a violência que transborda; as interpretações propositalmente "forçadas"; tudo isto encontra-se presente no filme e certamente conseguiu incomodar o público setentista mais "careta". A direção de Carlos Reichenbach é precisa, segura, e, como para evidenciar que o Cinema Marginal e suas proposições eram uma escolha do diretor e não uma limitação, aqui e ali temos, na obra, planos sofisticados, com linguagem cinematográfica mais complexa e estética refinada (como no plano da janela, em que a câmera inicia dentro da cena e paulatinamente se afasta, abrindo o campo, saindo de cena, num lindo movimento). Célia Olga, por sua vez, alterna momentos completamente "canastrões" - evidentemente propositais - com outros sublimes, extremamente expressivos (como, por exemplo, na cena em que seu marido José mantém relação sexual com a personagem). Olha, é um filme bem legal DENTRO DA LÓGICA DO CINEMA MARGINAL.É mais que óbvio que se seu barato é filme visualmente exuberante, linguagem cinematográfica tradicional e temas mais palatáveis, esta não é a sua praia. Assim, certifique-se do seu gosto e consuma com moderação (eu curti!).

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