• hikafigueiredo

"Nada de Mau Pode Acontecer", de Katrin Gebbe, 2013

Filme do dia (112/2021) - "Nada de Mau Pode Acontecer", de Katrin Gebbe, 2013 - Integrante de um grupo religioso chamado Jesus Freaks, Tore (Julius Feldmeier) é um jovem que segue à risca os preceitos de amor e bondade cristãos. Ele vive com amigos em uma comunidade, mas, após fazer amizade com Benno (Sascha Alexander Gersak), acaba indo morar com a família deste. Após um curtíssimo período de harmonia, Tore descobre a cruel natureza de Benno, mas vê, nele, sua missão de evangelização e não se afasta da família.





Reza a lenda que a obra é baseada em fatos reais. Eu não posso (ou não quero) crer nisso. Não consigo acreditar que uma pessoa, por mais fanática religiosa que seja, aceite, voluntariamente, sua mais completa vitimização em prol de uma suposta "missão" legada por seu deus. O personagem Tore é um fiel fanático que crê, com veemência, nos ensinamentos cristãos. Ele leva ao máximo a frase de Lucas 6:29 - "se alguém bater em você numa face, ofereça-lhe também a outra". Ainda que Tore identifique a inerente perversidade de Benno, ele se nega a se afastar, pois acredita ter encontrado sua missão na terra - proteger e evangelizar a jovem Sanny, enteada de Benno, a qual é abusada por ele de diversas formas. Rapidamente Benno percebe essa disposição de Tore em sofrer por sua causa - e daí, meu filho, é ladeira abaixo. Tore é torturado por Benno de todas as formas possíveis de se imaginar - todas. Quanto mais impassível Tore se mantém diante da crueldade de Benno, mais o instiga a provar sua maldade e seu repúdio à religião de Tore. Há quem veja, no filme, um maniqueísmo crasso, uma contraposição entre a perversidade extrema e a bondade beatificadora. Leitura equivocada dos críticos do filme. A obra é uma crítica feroz ao fanatismo religioso, à ideia de que aquele que semear o amor será por isso recompensado. Não há qualquer beleza na atitude de Tore - mais do que uma vítima de Benno, ele é uma vítima de si próprio e de seu fanatismo cristão. Ninguém obriga Tore a ficar naquele local onde ele é martirizado - ele fica porque QUER!!!! O próprio Benno incita Tore a reagir - e ele não reage. Não sei se falta em mim essa fagulha cristã ou se minha natureza não me permite ser assim tão boazinha, mas a realidade é que em meia hora eu já estava com mais raiva de Tore do que de Benno. "Pelamor, criatura, reaja, mete logo uma paulada na cabeça desse filho de uma égua!" E nada. Assim, enquanto Tore era martirizado na tela, eu me martirizava e contorcia do lado de cá, indignada por tudo - por Benno, por Tore, pela religião cristã que prega essa beatitude toda. Enfim, prepare o estômago porque o filme dá ânsia - literalmente falando. A narrativa é linear, em ritmo crescente, dividida em três capítulos cujos títulos se relacionam à crença cristã: Fé, Amor e Esperança. A atmosfera é de desespero - Tore aceita qualquer coisa, enquanto o espectador se remói de indignação e aflição. O filme tem uma linguagem ligeiramente jornalística, com várias câmeras na mão e planos desfocados. A fotografia é bem "desmaiada", sem qualquer saturação ou contraste. Aliás, nem a direção de arte traz cor - a paleta de cores é basicamente neutra, sem nenhuma cor vibrante. A trilha sonora traz uma música pesada, com influência punk. No elenco, Julius Feldmeier dá vida ao fanático Tore - ele está ótimo no papel, dá vontade de esganar o rapaz por ser tão permissivo; Sascha Alexander Gersak interpreta o odioso Benno, também bastante bem no papel do carrasco; Gro Swantje Kohlhof interpreta Sanny, enteada de Benno e, na cabeça doente de Tore, sua missão precípua na terra; e Annika Kuhl faz Astrid, mãe de Sanny e cúmplice de Benno nas maldades praticadas contra Tore. Olha... o filme é MUITO perturbador, mas também é bem irritante. Não é para ser visto como uma batalha do Bem contra o Mal, mas como crítica ao fanatismo religioso em geral e aos preceitos cristãos em particular. Destaque para as cenas do frango (aaaaaaaargh, a pior cena), da boate e para a cena final. Só aconselhável para pessoas de estômago forte.

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