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  • hikafigueiredo

"Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre", de Eliza Hittman, 2020

Filme do dia (111/2021) - "Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre", de Eliza Hittman, 2020 - Autumn (Sidney Flanigan) é uma adolescente de dezessete anos que se descobre grávida. Residente em um pequeno e conservador condado da Pensilvânia, ela foge para Nova York com sua prima Skylar (Talia Ryder) na expectativa de conseguir interromper a gravidez.





Você, espectador do sexo masculino... A probabilidade de você não gostar do filme é enorme. A razão disso é que o filme não dialoga com o público masculino. A obra é intrinsicamente feminina, ela trata de assuntos do universo feminino dos quais apenas as mulheres conseguem ter a verdadeira dimensão, assuntos como machismo, sororidade, assédio, violência sexual, gravidez indesejada e aborto. E ainda que eventual espectador do sexo masculino tenha alguma experiência em qualquer destes temas, é certo que não a terá sob o ponto de vista da mulher - uma interrupção da gravidez realizada em outrem não é o mesmo que o mesmo procedimento realizado (ou imaginado) em si mesmo. Ademais, só uma mulher para ter a real proporção do peso de todos aqueles assuntos para alguém do sexo feminino. Assim, para alguém que não tenha intimidade com esse mundo da mulher, o filme pode parecer banal, pode parecer ter um desenvolvimento modorrento, mas é que o peso de tudo aquilo está muito mais nas entrelinhas e nas experiências pessoais da espectadora do que estampado na história. Também não é uma obra de eventos excepcionais - não se tratam de acontecimentos extraordinários, mas de ocorrências que, como uma sombra eterna, espreitam toda a existência das mulheres e que acontecem diariamente pelo mundo inteiro. A narrativa é linear, num ritmo muito lento, como são as decisões tomadas nas circunstâncias tratadas na história. A atmosfera é de uma angústia discreta e de ansiedade controlada, a ansiedade de quem quer resolver rapidamente um problema que não pode ser resolvido tão rápido assim. É interessante perceber que, com exceção a uma única presença masculina mais constante, o universo do filme é, quase na sua totalidade, povoado por mulheres - desde a protagonista e sua acompanhante, até as profissionais destacadas para auxiliá-la. Além disso, os personagens homens são quase sempre desagradáveis - eles ofendem, assediam, abusam, ridicularizam, diminuem ou criticam as personagens femininas e, até quando ajudam, exigem, discretamente, uma contrapartida (algo que só o público feminino perceberá). Tecnicamente, é um filme sem grandes atrativos - a linguagem é bem tradicional; fotografia, montagem, edição de som, tudo é muito discreto, como que para não desviar a atenção da história. A trilha sonora, igualmente discreta, não é usada para manipular emocionalmente o espectador - coisa rara. O elenco conta com uma ótima Sidney Flanigan que consegue trazer, em seu semblante fechado, toda a tensão e angústia vividas pela personagem Autumn; Talia Ryder interpreta a prima Skylar, um exemplo de sororidade, de acolhimento e de solidariedade com outra mulher. Théodore Pellerin interpreta - muito bem - Jasper, personagem que aparenta ser muito mais legal do que é na realidade (o que talvez o público masculino não perceba, até pela naturalização de certas condutas na sociedade, como o flerte que se transforma discretamente em assédio e abuso). Eu gostei demais do filme, salientando que não é uma obra grandiloquente - ao contrário, é uma obra que murmura, que segreda sua questões. Eu recomendo, principalmente para mulheres.

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