• hikafigueiredo

" O Ídolo", de Hany Abu-Assad, 2017

Filme do dia (445/2020) - " O Ídolo", de Hany Abu-Assad, 2017 - Faixa de Gaza, 2005. Os irmãos Mohammed (Kais Attalah) e Nour (Hiba Attalah) sonham em montar um grupo de música árabe, enquanto brincam pela região destruída pelo conflito entre palestinos e judeus. Sete anos depois, Mohammed (Tawfeek Barhom), agora adulto, tenta uma vaga no programa Arab Idol para realizar o seu sonho e o de sua irmã.





Já disse algumas vezes que, via de regra, não curto filmes de superação - não acredito em meritocracia e acho deprimente comemorar o fato de alguém sofrer horrores para realizar algum feito ou sonho. Mas quando a história de superação extrapola o indivíduo e, de alguma forma, ganha significância para algum grupo minoritário, dando voz a esta minoria através da representatividade, aí a coisa muda de figura e aumenta, significativamente, a chance de me agradar - e este foi exatamente o caso deste obscuro filme palestino. A obra narra, com alguma liberdade poética, a história real de Mohammed Assaf, um jovem palestino que ganhou fama pelo mundo árabe por ser o vencedor do programa Arab Idol. Único representante da Palestina dentre centenas de candidatos, Mohammed destacou-se dos demais, primeiro por ser proprietário de uma excepcional voz, e, segundo, por representar toda uma nação que, habitualmente, não tem qualquer voz na mídia oficial. Muito embora a história pessoal de Mohhamed fique em primeiro plano, o filme dá espaço para uma crítica nada sutil às condições de vida impostas aos palestinos na Faixa de Gaza pelos israelenses - e, para isso, não precisa mencionar, uma única vez sequer, o nome do país opositor, pois as imagens da destruição falam por si só, bem como a evidente falta de oportunidades naquele canto do mundo. Claro que a história real foi romanceada e, por vezes, o filme manipula o espectador com detalhes melodramáticos, mas, admito que as cenas reais da vitória de Mohammed me tocaram imensamente. A produção do filme é simples, bem diferente das produções hollywoodianas, mas serve ao seu propósito e não faz feio. A linguagem cinematográfica da obra não se mostra autoral - ao contrário, é bastante convencional, tudo certinho, mas sem arroubos de criatividade ou inspiração. Tecnicamente, é um filme apenas okay, sem grandes destaques. Sobre a trilha sonora, é curioso que a musicalidade do canto árabe é tão diferente da ocidental que, para nós, é impossível dimensionar o talento de alguém neste aspecto. Quanto às interpretações, adorei a dupla de atores mirins, em especial Kais Attalah, que além de cantar muito graciosamente (pelo o que eu percebi), é uma graça e tem um sorriso contagiante. Também desenvolvi profunda simpatia por Tawfeek Barhom, que interpreta Mohhamed adulto, tem o mesmo sorriso encantador e uma voz extremamente potente (mesmo cantando algo cuja musicalidade eu não entenda muito bem) - a interpretação dele não se mostra nada de excepcional, mas, tampouco, atrapalha o personagem. A obra é bastante despretensiosa, revela-se simples, diria até humilde, mas traz uma história simpática que consegue prender a atenção e, até mesmo, emocionar. No mínimo vale a pena ver por dar espaço a uma produção palestina. Eu achei fofo. Recomendo carinhosamente.

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