• hikafigueiredo

"O Abraço da Serpente", de Ciro Guerra, 2015

Filme do dia (314/2020) - "O Abraço da Serpente", de Ciro Guerra, 2015 - Theo (Jan Bijvoet) é um explorador alemão embrenhado na floresta amazônica. Ele está muito doente e precisa convencer o índio Karamacate (Nilbio Torres) a levá-lo até a planta yakruna, única capaz de salvá-lo. Anos depois, o pesquisador norte-americano Evan (Brionne Davis) refaz os passos de Theo, em busca da mesma yakruna, encontrando, no entanto, Karamacate (Antonio Bolivar) totalmente diferente.




Pare tudo! Pare tudo e reverencie esse filme! Agora!!!! A obra é a derradeira e única a tratar, verdadeiramente, da questão da aculturação de povos, destruição de culturas milenares e necessidade de defesa dos povos originários. O filme mostra, de maneira crua, como o homem branco invadiu a América, espalhando-se pelo continente feito uma praga, destruindo tudo pelo qual passava - plantas, animais e, claro, culturas diferentes da sua. Dói na alma assistir aos povos indígenas sendo massacrados pelos comerciantes de borracha, arrancados de sua cultura pelos odiosos missionários cristãos, abusados, por todos os lados, pelo homem branco. Ao mesmo tempo, o filme revela a ingenuidade do índio frente à maldade e potencial bélico do ocidental, bem como a profundidade de seus sábios conhecimentos. A obra é, simplesmente, FANTÁSTICA, podendo ser definida como uma denúncia do poder destruidor do homem branco e um grito de socorro dos povos originários. A narrativa, não-linear, acontece em dois tempos diferentes - a jornada de exploração de Theo e, alguns anos depois, a jornada de auto-conhecimento de Evan. Unindo os dois tempos, o índio Karamacate - que sofre profunda transformação após o contato com os dois homens brancos - e a busca pela planta mágica yakruna. A narrativa é fluida, impecável e completamente "amarrada", inexistem brechas a serem sanadas. O ritmo é moderado com momentos de maior ação. É uma obra que nos obriga a pensar e que impõe certo intimismo. Também é um filme sensorial, na medida em que somos tomados pela angústia e sensação de impotência frente à injustiça. Tecnicamente também é irretocável. Com uma fotografia P&B suave, que privilegia os milhares tons de cinza, há uma única cena colorida (não vou dizer qual para não dar spoiler). Os enquadramentos são, na maioria do tempo, bastante convencionais, mas há, aqui e ali, alguns planos mais diferentões. A principal sonoridade da obra está nos sons da floresta e nos diálogos em muitas línguas. As interpretações são exemplares, com destaque para os atores que interpretam Karamacate jovem - Nilbio Torres - e idoso (Antonio Bolivar) - a gente jura que els vieram diretamente do Alto Xingu. Destaque para as duas cenas na Missão, ambas chocantes e dolorosas (e odiosas e revoltantes...). A obra concorreu ao Oscar de Filme Estrangeiro em 2016, perdendo, injustamente, para "O Filho de Saul" (que é um filmaço, eu sei, mas que trata de assunto para lá de explorado). O filme é magnífico, imperdível e atualíssimo, eu amei e recomendo, entrando no rol de obrigatórios. PS - Agradecimento ao selo Esfera por ter lançado a obra em DVD.

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