• hikafigueiredo

"O Demônio", de Brunello Rondi, 1963

Filme do dia (128/2022) - "O Demônio", de Brunello Rondi, 1963 - Em uma aldeia na Lucânia, sul da Itália, uma jovem mulher, Purificazione (Daliah Lavi), recorre a um feitiço na tentativa de "amarrar" Antonio (Frank Wolff), seu amado, que está prestes a se casar com outra mulher. A partir disso, "Puri" passa a ser vista como uma bruxa possuída pelo demônio.





Gratíssima surpresa do terror gótico italiano, o filme discorre sobre práticas pagãs e seu reflexo dentro de uma comunidade eminentemente católica. Logo de início, acompanhamos a protagonista Puri recorrendo à bruxaria para trazer seu amado para seus braços. O feitiço, logicamente, não surte qualquer efeito, posto Antonio, o objeto da paixão de Puri, logo contrair matrimônio com outra moça. No entanto, a notícia de que Puri havia feito um feitiço para Antonio rapidamente se espalha entre os aldeões e esta passa a ser vista como uma bruxa e rechaçada por toda a comunidade. E aí chegamos à questão mais interessante da obra, pois Puri começa a externar comportamentos estranhos - ela se contrai inteira, solta gritos horrendos e se auto lesiona, dando sinais de que está possuída por alguma entidade demoníaca. Mas, estaria Puri realmente possuída ou tudo seria tão somente uma autossugestão de uma jovem que crescera entre pessoas profundamente religiosas e que agora, inconscientemente, estaria se martirizando por ter cedido a uma prática tão condenada por seus pares? Puri, supostamente possuída, não manifesta nenhuma capacidade sobrenatural - ela não levita, mexe objetos ou revela qualquer poder além do normal -, de forma que tudo poderia ser apenas uma reação irracional da própria jovem culpando-se por sua ações pretéritas. E a obra mostra-se interessantíssima justamente por não dar uma resposta fechada à essa questão - se o espectador quiser crer que a história se trata de algo sobrenatural e demoníaco, tudo bem; se ele optar por ver tudo como uma questão psicológica, quiçá psiquiátrica, da protagonista, também é possível. Por outro lado, é bem interessante ver a reação da comunidade à suposta bruxa, pois, ao mesmo tempo em que os aldeões condenam as práticas pagãs da moça, eles recorrem a "simpatias" sem qualquer fundamento cristão no intuito de trazer proteção aos moradores (vide a cena da preparação do leito nupcial dos noivos, nem um pouco diferente do que Puri fazia). A obra traz, ainda, uma questão interessante sobre o machismo estrutural e a misoginia - por Puri ser vista como uma mulher impura, ela é alvo de diversos atos de violência, principalmente sexual, sendo abusada em pelo menos duas cenas pelos "homens de bem" da aldeia. Outra coisa que é muito bacana no filme é que foi feita uma pesquisa real sobre as crendices daquela região da Itália e todas as "bruxarias" e simpatias que aparecem na obra seriam práticas existentes no local àquela época. A narrativa é linear, em um ritmo moderado. A atmosfera é pesada, tensa, muito embora a real natureza do que acontece seja nebulosa (se é ou nã uma manifestação sobrenatural). Outra coisa incrível no filme é sua estética - a obra traz ecos evidentes do neorrealismo italiano, desde o uso de locações reais, a participação de gente do local, até a fotografia P&B crua e com inspiração documental e a total ausência de música nas cenas mais marcantes. Com relação ao elenco, o filme é totalmente de Daliah Lavi, uma atriz que me era desconhecida e se revelou impressionantemente expressiva e talentosa. A personagem Puri alterna momentos de placidez com outros de verdadeira histeria e Daliah Lavi consegue transitar muito bem por estes extremos. Vale a pena destacar a cena de abertura, quando Puri está realizando o feitiço para Antonio, a cena da suposta possessão e a cena do exorcismo, esta última impressionante em todos os sentidos e que certamente foi inspiração para filmes de terror sobre possessão posteriores. O elenco, ainda, traz Frank Wolff como Antonio - bem, mas nada de excepcional; Rossana Rovere como esposa de Antonio; Maria Teresa Orsini, Franca Mazzoni e Anna Maria Aveta como as freiras que acolhem a protagonista. O filme é muuuuuito bom, incrível ser uma obra tão obscura e desconhecida. Filmaço. Recomendo muito.

0 visualização0 comentário