• hikafigueiredo

"O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro", de Glauber Rocha, 1969

Filme do dia (139/2019) - "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro", de Glauber Rocha, 1969 - Nordeste, década de 1940. Após a morte de Lampião, acredita-se que o cangaço chegou ao fim. No entanto, um cangaceiro de nome Coirana (Lorival Pariz) e seu bando andam pelo sertão a enfrentar a elite agrária que subjuga a população. Nessa conjuntura, o matador de cangaceiros Antônio das Mortes (Maurício do Valle) é chamado pelo coronel Horácio (Jofre Soares), através de seu aliado Mattos (Hugo Carvana), para dar cabo em Coirana e seus beatos. Mas uma profunda transformação acontecerá em Antônio das Mortes a partir deste confronto.





Nesta obra-prima de Glauber Rocha, ele retoma temas e personagens abordados anteriormente no magnífico "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964). Como em outros filmes do diretor, este usa de alegorias para tratar de temáticas sociais e críticas às elites e governo brasileiros. Aqui temos o claro confronto entre os poderosos - coronéis e governantes, auxiliados por jagunços - representados como "o Dragão da Maldade", e a população paupérrima, consumida pelos desmandos das elites - os cangaceiros e "beatos"-, aqui representados como "o Santo Guerreiro". É neste terreno de crítica social que a narrativa se desenvolve, num evidente clamor por justiça social. Glauber Rocha usa e abusa da cultura e do folclore nordestinos, inclusive se utilizando de música regional e literatura de cordel, para contar sua história, que, também, está completamente inserida no universo do Cinema Novo. O filme é um deslumbre e Glauber Rocha foi merecedor do Prêmio de Melhor Diretor em Cannes naquele ano. Não vou me aprofundar mais na história para não dar spoilers e estragar a leitura pessoal da obra do espectador, o que seria imperdoável num filme tão alegórico e cuja parte da graça está justamente em interpretar seu conteúdo. O filme, essencialmente autoral, conta com uma fotografia pouco trabalhada, quase uma antítese daquela fotografia com ares de publicidade, o mesmo acontecendo com o som. As interpretações, propositalmente teatrais, acompanham o conteúdo alegórico, o que não tira nem um pouco da densidade da obra. No elenco, além dos já mencionados, temos Odete Lara como Laura, Othon Bastos como o Professor, Rosa Maria Pena como Santa Bárbara e Vinicius Salvatori como o jagunço Mata-Vaca. O filme é maravilhoso, uma obra-prima nada convencional, merece todo o burburinho que existe em torno dele. Recomendadíssimo para quem curte cinema além do mero entretenimento.

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