• hikafigueiredo

"O Segundo Círculo", de Aleksandr Sokurov, 1990

Filme do dia (344/2020) - "O Segundo Círculo", de Aleksandr Sokurov, 1990 - Em um vilarejo longínquo da Sibéria, um jovem chega para encontrar seu pai agonizante. Após a morte do idoso, o jovem terá de percorrer um árduo caminho para enterrar, com dignidade, seu pai recém-falecido.




Desolação é o que melhor define a obra. Tratando, basicamente, da morte e de seus significados, o filme revela como esse trágico evento pode ser recebido de diferentes formas por diferentes pessoas. Enquanto encontramos um filho desolado, sofrendo em silêncio, nos recônditos de sua alma, a perda do pai idoso, o restante da sociedade trata com desdém e desrespeito a passagem do homem para um outro plano. São médicos, cartorários e agentes funerários objetivos, apressados, frios e nada empáticos, imersos em um mar de burocracias, incapazes de receber com piedade a dor daquele jovem. A morte e a frieza são os elementos comuns - do lado de dentro do imóvel onde jaz o falecido, do lado de fora da casa onde imperam neves eternas e a solidão das ruas vazias, e na alma daqueles que tratam dos trâmites para o sepultamento. O único que revela alguma "chama" interior é o filho enlutado - e isso porque expressa a dor em seu olhar e nas suas poucas palavras acerca da negativa em cremar seu pai ("eu posso queimar tudo, menos meu pai"). Os rituais de morte, aqui, são esvaziados de seus significados e transformados em algo mecânico. É uma obra circunspecta, que passa, sem qualquer alarde, suas ideias e críticas à sociedade local - a única alteração de voz e expressão que ocorre ao longo da história é da irritadiça agente funerário que quer se desfazer logo de seu trabalho, pois, de resto, sobram murmúrios e longos e desconfortáveis silêncios, aos moldes do compatriota do diretor, Tarkovski. A narrativa é linear, o ritmo é algo além de lento e atmosfera desoladora e um tanto onírica - o espectador entra em um clima de sonho, de irrealidade, junto com o personagem (quem já vivenciou a morte de um ente querido sabe que é exatamente isso que acontece: durante dias, o enlutado vive uma sensação de que aquilo tudo não é real e o tempo parece ter parado). A fotografia é P&B, com alguns poucos detalhes em cores, por vezes extremamente esmaecidas; os enquadramentos são diferentes, ousados e sofisticados e os poucos movimentos de câmera, extremamente lentos, são complexos e imprevisíveis. Em mais de uma cena, temos uma ação ocorrendo em segundo plano e o filho em primeiro plano, observando, assustado, o que acontece ao seu redor. A trilha sonora é quase inexistente e o espectador terá de aceitar e se acostumar com um silêncio infinito e ensurdecedor. Mesmo os diálogos são poucos e todos tratam, unicamente, dos trâmites acerca do sepultamento do cadáver. A interpretação de Pyotr Aleksandrov é, como o filme, pesada, contida e silenciosa. IMPORTANTE: o filme tem um forte gatilho para a depressão, deve ser evitado por quem pode se impressionar fácil com o tema. Aliás: não é um filme fácil sob nenhum aspecto, tanto pelo tema, quanto pela forma. Quem está acostumado a filmes com ritmo marcado, nem pensar em tentar esse aqui, ele é muito, muito, muito lento. Se o espectador conseguir entrar na "vibração" da obra, é um belo filme, caso contrário, provavelmente não terá uma boa experiência. Só recomendado para iniciados (aquele povo esquisito que gosta de Tarkovski, Bergman, Kiarostami, do qual eu comungo... rs XD).

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