• hikafigueiredo

"O Vício", de Abel Ferrara, 1995

Filme do dia (87/2021) - "O Vício", de Abel Ferrara, 1995 - Kathlenn (Lili Taylor) é uma doutoranda em filosofia que, subitamente, vê sua existência ser modificada radicalmente ao ser transformada em uma vampira. Ela precisará aprender a conviver com sua sede de sangue para conseguir seguir adiante.





Nesse filosófico filme acerca de vampiros, temos muito mais do que mera história de terror. A obra se propõe a discorrer um pouco sobre a essência do mal e a maldade intrínseca ao Homem - não apenas às criaturas da noite de que trata o filme, mas do ser humano como um todo, incluindo aqueles que, alegadamente, estavam apenas "cumprindo ordens". O filme é cheio de referências a autores como Baudelaire, Sartre, Nietzsche e por aí vai - algumas citações encaixam-se bem na narrativa, mas outras me pareceram por demais aleatórias e/ou complexas para estarem ali (sorry, mas ninguém vai fazer tratado de filosofia vendo filme de vampiros, vai...). A obra também traz um sem fim de imagens perturbadoras relacionadas ao tema - corpos esquálidos empilhados em campos de concentração nazistas, valas comuns cheias de cadáveres de crianças nos campos do Vietnã e Camboja, mortos em atentados no Oriente Médio, tudo para explicitar o quanto o mal está presente na vida humana e é suportado por todos nós. O vício, no caso, não é, apenas, a necessidade de sangue da personagem que, como uma adicta, contorce-se de dor quando em abstinência, mas a maldade presente no ser humano - o mal e o prazer dele advindo seriam o verdadeiro vício humano, do qual a Humanidade não conseguiria se afastar. Então... é uma obra beeeeem filosófica. A narrativa é cronológica e o ritmo muitíssimo mais lento do que o esperado para um filme supostamente de terror, aproximando a obra do gênero drama. A atmosfera é sombria e depressiva - a gente sente menos medo e tensão do que desconforto e angústia. A fotografia P&B tem momentos mais contrastados e outros mais suaves, dependendo da cena. As músicas - na maioria rap - têm letras sugestivas falando de dependência química, dor, abstinência, morte, etc. No elenco, Lili Taylor interpreta uma Kathleen por vezes confusa, por vezes decidida, mas sempre disposta a ter sua "dose" diária de sangue. Christopher Walken faz uma ponta como Peina, um vampiro milenar que consegue estar mais adaptado ao ambiente humano, o que o torna infinitamente mais maligno do que Kathleen - pensa em alguém sem qualquer compaixão. Destaque para a aterradora cena da festa, seguida da caminhada pela rua - duas cenas fortíssimas! O filme é ótimo, mas há que se estar disposto a filosofar um bocado (não é filme de terror padrão MESMO!!!!).

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