• hikafigueiredo

"O Voto é Secreto", de Babak Payami, 2001

Filme do dia (225/2021) - "O Voto é Secreto", de Babak Payami, 2001 - Em uma diminuta ilha, em uma área esquecida do Irã, uma tenaz funcionária da justiça eleitoral (Nassim Abdi), acompanhada de um soldado do exército iraniano (Cyrus Abidi), percorre a ilha recolhendo votos para a eleição corrente. Ela não descansará enquanto não contatar cada morador daquelas paragens, convencendo-os da importância de votar.





A partir de um argumento aparentemente simples, o filme discorre sobre uma série de questões bastante complexas relacionadas às particularidades do país. Tratando, inicialmente, da incipiente democracia iraniana, a obra discute a importância do voto, mas, também, apresenta, de forma sutil, todos os entraves existentes para que esta mesma democracia se estabeleça de maneira sólida, tais como o fanatismo religioso, as diferenças étnico-culturais e a condição feminina. O filme, assim, apresenta-se como um verdadeiro mosaico do país e, não obstante mostre temas complicados de serem equacionados, traz, embutida, uma mensagem otimista acerca do futuro. A escolha de uma mulher como protagonista - a jovem, dedicada e insistente funcionária da justiça eleitoral - não é aleatória e reveste-se de um forte significado: as mulheres iranianas surgem, aqui, como o vento que traz mudanças, como a força motriz que tem o poder transformador na sociedade. A presença do soldado, igualmente, não é à toa - representando a militarização daquele país, bem como a força do establishment masculino, se inicialmente ele se mostra reticente à presença feminina (que, ainda por cima, chega numa condição de superioridade funcional), tornando-se mais um entrave à democracia, ele, paulatinamente, modifica sua postura até o desfecho surpreendente (sem spoilers). A narrativa é linear, em um ritmo ultra lento - quem não está acostumado a filmes parados vai estranhar e, muito provavelmente, detestar a obra. A fotografia caracteriza-se por planos abertos, muito longos, e câmera absolutamente parada, como se observasse tudo sem interagir, algo meio "voyeurístico". A fotografia aproveita muito bem a paisagem natural (fiquei impressionada com a cor daquele mar!!!), inclusive por não existir uma única cena sequer interna. A trilha sonora é discreta, pouco influenciando na narrativa. Os atores, como de costume no cinema iraniano, são visivelmente iniciantes, mas em nada atrapalham o desenvolver da história - ao contrário, eles parecem muito à vontade em seus papeis, trazendo uma naturalidade quase inocente. Nas interpretações, o destaque fica por conta de Nassim Abdi como a intrépida funcionária da justiça eleitoral, convencida da importância de sua função e decidida a angariar o máximo de votos para a urna que carrega para cima e para baixo. O filme é ótimo, mas exige uma certa leitura crítica acerca dele, sem o qual a obra se torna um tanto quanto árida. Quem gosta de cinema iraniano, acredito que curta; quem não está acostumado à cinematografia daquele país, aconselho a começar a conhecê-la por outras obras (sugeriria, inclusive, começar com o diretor Asghar Farhadi, passando depois para Majidi Majidi, Jafar Panahi, Abbas Kiarostami e Mohsen e Samira Makhmalbaf, nessa ordem... rs).

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