• hikafigueiredo

"Olmo e a Gaivota", de Petra Costa e Lea Glob, 2014

Filme do dia (14/2020) - "Olmo e a Gaivota", de Petra Costa e Lea Glob, 2014 - Às vésperas de uma importante turnê por Nova York e Montreal, uma atriz de teatro e seu companheiro descobrem-se grávidos, criando uma expectativa em torno da gravidez e o futuro profissional da futura mãe.





Depois de estrear com o magnífico "Elena" (2012), obra que me fez dissolver em lágrimas, a diretora Petra Costa volta com uma empreitada ainda mais ousada - um filme-limite entre ficção e documentário (pendendo um pouco mais para o primeiro). O trabalho é ousado por dois motivos: primeiro pelo formato, que mistura ficção com a real gravidez da atriz Olivia Corsini, o que faz com que o espectador nunca saiba bem o que é real e o que é mero roteiro. Há, ainda, a intervenção, em "off", das diretoras que, por vezes, conduzem a narrativa, tornando ainda mais fluo o limite entre ficção e realidade. O segundo motivo que me levou a considerar a obra ousada é o tema. A gravidez, aqui, não é mostrada como a plenitude da mulher, o momento mágico onde ela se descobre "sacrossanta mãe" e todo aquele blá blá blá romântico em torno do "ter um filho". Não, pelo contrário, há uma desconstrução da gravidez, uma aproximação da realidade nua e crua em torno das expectativas, medos, frustrações e raivas - sim, mulher grávida sente todas essas coisas, é obra ficcional aquela ideia de que tudo é cor de rosa durante a gravidez!!!! Discorre-se sobre o medo de perder espaço profissional, o desconforto com as mudanças no corpo, a irritação com a falta de participação do companheiro, o medo de não ser capaz, suficiente ou boa mãe, o tédio por ter de ficar em repouso diante de um possível risco de aborto, a percepção do envelhecimento, dentre um sem fim de temas. Como era de se esperar dada à temática, é um filme bastante feminino, que tocará com muito mais veemência mulheres (especialmente as que já passaram por uma gravidez) que homens. Por outro lado, é um filme que gera empatia, onde a espectadora se identifica com o que acontece na tela, maaaaaaas, que não causa o mesmo envolvimento emocional do filme antecedente (que, como eu disse, quase me causou uma desidratação). De qualquer forma, é uma obra que mostra, mais uma vez, o talento de Petra Costa e que demonstra a versatilidade da diretora para ir além do seu foco principal, que é o documentário. Filme bem bacana, recomendo, em especial para o público feminino.

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