• hikafigueiredo

"Papillon", de Franklin J. Schaffner, 1973

Filme do dia (401/2020) - "Papillon", de Franklin J. Schaffner, 1973 - França, 1930. Papillon (Steve McQueen), um arrombador de cofres, é acusado e condenado por um suposto assassinato. Enviado a uma colônia penal na Guiana Francesa, ele faz amizade com o falsário Louis Dega (Dustin Hoffman) e faz planos para fugir.





Baseada na suposta autobiografia de Henri Charriére (informação um pouco controversa), a obra discorre sobre a crueldade do sistema prisional, a justiça como vingança, o anseio por liberdade, a determinação, a tenacidade, a fidelidade, o companheirismo e a amizade. A colônia penal em questão tinha regras bárbaras, que levavam à morte quase 50% do prisioneiros ainda no primeiro ano de cárcere. De trabalhos forçados extremos à castigos desumanos, os prisioneiros estavam à mercê dos instintos cruéis e sádicos do diretor do presídio, que não titubeava em deixá-los anos a fio na solitária, muitas vezes em plena escuridão e sem alimentos. O filme chega a ser perturbador pela crueldade que explicita, maquiada sob o título de justiça. O protagonista, sempre alegando inocência quanto ao assassinato que o condenou à prisão, inconformado, mostrou-se determinado a sair daquela sucursal do inferno da Terra, arriscando sua vida para ganhar novamente a liberdade. E é disto que trata a obra - a determinação em ver-se livre novamente, mesmo que isto possa custar muito caro ao personagem. Se a obra é perturbadora por este retrato seco da crueldade daqueles que detém poder sobra a vida do outro, é também um filme que traz uma mensagem até bonita sobre a amizade e fidelidade entre aqueles que se encontram sob uma mesma situação (muito) desfavorável. Papillon e Dega desenvolvem uma relação baseada em respeito e gratidão, que irá acompanhá-los por muitos anos, graças à resistência de Papillon, que se nega a trair o companheiro de cárcere em determinada situação (sem spoilers). A narrativa é linear, o ritmo é mais para o lento e a atmosfera é de desalento e angústia. Devo dizer que tem um trecho, lá pelas segunda hora, que a obra se torna um pouco arrastada e cansativa, perdendo bastante o ritmo, para , um pouco mais perto do final, recuperá-lo novamente. Algo que me impressionou é que, por cerca de uma hora de filme, a paleta de cores tem, basicamente, uma única tonalidade, uma cor terrosa que toma tudo e que dá a medida do inferno que os prisioneiros vivenciavam entre aqueles muros. Steve McQueen está fantástico como o teimoso Papillon e, muito rapidamente, acabamos torcendo para que ele consiga fugir; no papel de Dega, o sempre perfeito Dustin Hoffman, que interpreta o personagem com mais contenção. O filme é muito bom, mas me fez sofrer um bocado. Recomendo para quem quer material para refletir acerca de poder, punição e justiça.

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