• hikafigueiredo

"Possessão", de Andrzej Zulawski, 1981

Filme do dia (177/2020) - "Possessão", de Andrzej Zulawski, 1981 - Mark (Sam Neill) acaba de voltar de viagem. Em meio à crise conjugal, encontra sua esposa Anna (Isabelle Adjani) confusa, sem saber se quer ou não a separação. Essa situação evoluirá a níveis descontrolados.





Uma relação abusiva. Um casamento em processo de dissolução. Uma psique frágil. Esses são os elementos que conduzem a narrativa deste filme de terror psicológico que me deixou, antes de tudo, desconfortável. Nem vou fingir que alcancei todos os significados da obra - teria de digeri-la por muitos dias para, talvez, alcançar todas as suas nuances. Mas é certo que a criatura que surge no filme é, na realidade, uma alegoria do resultado daqueles três elementos mencionados acima. A criatura surge como representação do descontrole emocional de Anna, da verdadeira fragmentação de sua psique, resultado de uma relação onde inexistia diálogo, presença, afeto, respeito. Anna é consumida pela relação abusiva da mesmo forma como é consumida pela coisa. A dependência emocional da personagem passa de Mark para a criatura e, "surprise", (um quase spoiler aqui) retorna para a figura do marido de uma maneira bem peculiar. Anna é devorada emocionalmente pelo casamento, por Mark, pela criatura. A obra está imersa na subjetividade dos personagens, principalmente na de Anna. Há, no filme, algo de muito sombrio, muito perverso - e não pense que é a criatura, que ganha ares lovecraftianos. O filme é... wow... muito bom. O roteiro é fugidio, tive a impressão de estar correndo atrás dele para alcançar a compreensão, que me escapava, deixando-se compreender apenas em parte, e, mesmo assim, meio que intuitivamente, bem mais do que racionalmente. Aliás... é fato... é uma obra bastante intuitiva, tive uma relação com ela extremamente sensorial. Parte dessa relação sensorial, uma coisa meio embriagante, surge da câmera em eterno movimento... são travellings e mais travellings laterais e circulares que dão certa sensação de perda de referência, como se experimentássemos a confusão mental dos personagens. Também são muitas as cenas que se fecham em planos próximos, dando total destaque às expressões faciais dos atores - quase sempre expressões de horror, asco ou confusão. A montagem também me soou intuitiva: ainda que a narrativa ocorra em tempo linear e cronológico, as cenas passam de uma a outra em saltos, com grandes intervalos entre os acontecimento, o que tira, mais uma vez, a nossa referência (quanto tempo se passou? Algumas horas, um dia, uma semana?). O filme conta com poucos, mas ótimos efeitos especiais (lembrando que é uma produção de 1981, o que deixa ainda mais espantoso o feito). Sinceramente, fiquei tão envolvida pela narrativa e pelas imagens que fui incapaz de perceber qualquer referência de som (já sou ruim com isso normalmente, fui ainda pior nesse filme). Para terminar, as interpretações - Sam Neill está incrível como o controlador e abusivo Mark - a fúria que surge nele por ter sido preterido, por perder o controle sobre Anna, que passa para terceiros, sai por seus poros, toma o personagem. Ciúme, abusos psicológicos, verbais e físicos , Mark é um poço de rancor... e Sam Neill assume esse papel maravilhosamente bem (lembrei dele em "O Piano", 1993, no papel de um personagem igualmente abusivo). Agora Isabelle Adjani... ah, Isabelle... não bastava ser linda, tinha de ser tão talentosa!!! A Anna de Isabelle é a figura do esfacelamento e do descontrole. A interpretação da atriz é visceral, parece que ela incorporou a personagem do além, algo que nem mesa espírita explica. A composição da personagem passa por uma trabalho corporal inimaginável - Anna colapsa, não apenas emocional e psicologicamente, mas fisicamente também. São cenas em que os olhos de Anna quase pulam das órbitas, seu rosto fica crispado de terror, medo, culpa., prazer, tudo ao mesmo tempo agora, e seu corpo treme, parece que ela está possuída. Isabelle está perfeita!!! No elenco, ainda, Heinz Bennent como Heinrich, numa interpretação que me escapou (ele é extremamente afetado, exagerado... tenho certeza que foi intencional, mas não alcancei o motivo, o que o diretor quis com esse personagem). Destaque absoluto: a cena do surto de Anna no metrô - gente... o que foi aquilo??? Que cena assustadora... A obra é instigante, inebriante, toma a gente de assalto. É excelente!!! Vale cada minuto!!! Recomendo, lembrando que está longe de ser um filme de terror convencional, vai agradar mais um outro tipo de público do que o de terror habitual.

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