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  • hikafigueiredo

“Silenciadas”, de Pablo Aguero, 2020

Filme do dia (36/2023) – “Silenciadas”, de Pablo Aguero, 2020 – País Basco, 1609. Um grupo de cinco jovens mulheres é acusado de bruxaria. Ainda que reafirmem sua inocência, seu inquisidor Rostegui (Alex Brendemühl) insiste na acusação e pressiona as acusadas para que revelem o ritual do Sabbath. Para ganhar tempo, as jovens passam a contar histórias de seu hipotético envolvimento com as forças do mal.





Inspirado em fatos reais acontecidos no ano de 1609, na França, quando um inquisidor passou a acusar maciçamente as mulheres de alguns vilarejos de bruxaria, levando à morte centenas de vítimas, o filme, do gênero drama histórico, concentra sua atenção no grupo de cinco mulheres que caem em desgraça ao serem vistas dançando em um bosque, em uma época em que qualquer coisa era motivo para acusar alguém de ter parte com o tinhoso. A conduta suspeita logo chega aos ouvidos do inquisidor Rostegui, que prontamente as acusa de bruxaria. Perseguidas e detidas, as jovens tentam provar sua inocência, mas o inquisidor é hábil em torcer narrativas e argumentos, fazendo com que as moças caiam em armadilhas retóricas que tornam cada vez mais distantes suas chances de liberdade. Percebendo que não existe forma de provar sua inocência, as mulheres entram em um perigoso jogo narrativo tentando ganhar tempo para o retorno dos homens da vila – marinheiros em alto mar na ocasião – à terra firme e assim, talvez, libertá-las. Passam, então, a descrever o ritual do Sabbath, envolvendo Rostegui em seu discurso. O filme é daquele tipo de obra que angustia e causa revolta no espectador, pois é evidente que as personagens são apenas jovens normais, cheias de viço e vida e por despertarem despeito, inveja e desejo, acabam sendo alvo fácil para maledicências – que, nesta conjuntura, invariavelmente terminavam com a morte na fogueira. Gostei demais da condução da narrativa, principalmente pelo modo como o inquisidor acaba revelando sua essência – afinal, todos sabem que não existem almas mais podres que a dos falsos virtuosos, beatos e defensores ferrenhos da fé e da castidade. Claro que se um homem tem desejos pecaminosos por uma mulher, a culpa é exclusiva dela, que o tentou, coitadinho, ele é uma vítima inocente de uma fêmea perversa (atenção: contém ironia. Muita!). Gostei também de como as personagens se entregam à fantasia que imaginam (cheguei a cogitar a possibilidade de o diretor ter tido a intenção de criar alguma dúvida quanto à inocência das jovens, mas acabei descartando essa hipótese diante de acontecimentos da narrativa – sem spoilers). A narrativa é linear, em ritmo moderado, mas crescente. A atmosfera é pesada, claustrofóbica, angustiante. Adorei o desenho de produção de época, assim como a belíssima fotografia em tons quentes. O filme traz uma musicalidade que nos remete ao passado, algo ancestral, não sei bem explicar. As interpretações são viscerais, tanto as das jovens vítimas, quanto a do inquisidor. No papel das moças, Amaia Aberasturi interpreta Ana; Yune Nogueiras, a personagem Maria; Garazi Urkola, a personagem Katalin; Jone Laspiur, a jovem Maider; e Lorea Ibarra, a personagem Oneka – todas estão muito bem, mas destaco a riqueza de expressão de Amaia Aberasturi e o trabalho corporal assustador (assustador MESMO!!!!) de Garazi Urkola (a cena dela “possuída” chega a causar assombro!!!!). Já Alex Brendemühl causa uma dose boa de asco como o inquisidor Rostegui (e olha que o ator é bem bonitão). Eu gostei muito do filme, ele me prendeu fortemente (em especial num dia em que estava profundamente cansada – se eu não cochilei é por virtude da obra!), Recomendo muito (e está facinho na Netflix).

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