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  • hikafigueiredo

“Sindicato de Ladrões”, de Elia Kazan, 1954

Filme do dia (04/2024) – “Sindicato de Ladrões”, de Elia Kazan, 1954 – Após ter uma pequena participação no assassinato de um amigo, o estivador Terry Malloy (Marlon Brando) sente remorso pelo acontecido. Ele conhece Edie (Eva Marie Saint), irmã do jovem assassinado, e por ela se apaixona. Ele agora terá de decidir se denuncia as ações de Johnny Friendly (Lee J. Cobb), o chefão do sindicato de estivadores e mandante do assassinato, ou se silencia, como todos os demais colegas.




 

Inspirado em uma série de reportagens sobre irregularidades nos estaleiros  estadunidenses, o filme discorre sobre o controle criminoso exercido pelo presidente do sindicato de estivadores do porto novaiorquino e o dilema vivido pelo personagem Terry Malloy, dividido entre a delação e o acobertamento. O protagonista Terry é um ex-boxeador que, sem perspectivas, consegue trabalho no cais do porto, em parte pela proteção de seu irmã Charlie, um dos capangas do presidente do sindicato local. Duro na queda, Terry leva a vida sob a filosofia do ditado “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Quando Terry participa de uma emboscada que resulta no assassinato de um colega, ele começa a questionar sua postura, o que se acirra quando ele se apaixona pela irmã do jovem assassinado. A obra, que tem uma pegada meio neorrealismo italiano ao discorrer sobre o operariado, afastar-se de certo glamour que marcava as produções hollywoodianas da década de 1940 e trazer uma estética crua, retratando ambientes pobres e carentes e indivíduos que viviam à margem da miséria, consegue aliar as questões sociais às aspirações e necessidades pessoais dos personagens, equilibrando, como poucos filmes, os dois focos. A narrativa é completamente linear, em ritmo moderado, mas crescente. A atmosfera é de angústia, pois acompanhamos o dilema moral do protagonista, pois ele terá de, necessariamente, trair alguém – ou o corrupto e perigoso presidente do sindicato ou sua amada. Formalmente, o filme é irretocável, trazendo uma fotografia P&B suave, com enquadramentos bastante sofisticados e variados, com muitos plongées e contraplongées, e um desenho de produção contundente ao retratar a miséria dos estivadores. A edição de som não fica atrás e colabora muito com a construção narrativa e atmosfera – vide a cena da conversa entre Terry e Edie, onde um apito nos impede de ouvir o diálogo, mas a reação dos personagens nos permite intuir o diálogo (cena maravilhosa, por sinal). Quanto as interpretações, bem, temos ninguém menos que Marlon Brando, numa atuação memorável – ele consegue aliar dureza e suavidade no protagonista, fazendo dele um personagem complexo e cheio de questões; Karl Malden interpreta o padre Barry, Rod Steiger, o irmão de Terry, Charlie e Lee J. Cobb, o corrupto Johnny Friendly – as interpretações do trio, excelentes, levaram à tripla indicação para o Oscar (1955) de Melhor Ator Coadjuvante (mas nenhum deles levou); Eva Marie Saint, estreante, mostrou um trabalho muito denso como Edie, trazendo, como Marlon Brando fez com Terry, complexidade à personagem. O filme, festejadíssimo à época, foi agraciado com nada menos que oito Oscars (filme, direção, roteiro, ator, atriz coadjuvante, direção de arte, fotografia e edição), além de quatro Globos de Ouro (1955) (filme dramático, ator, diretor e fotografia), um BAFTA (1955) (ator estrangeiro) e o Leão de Prata em Veneza (1954). A obra é excepcional e não envelheceu nada. Obrigatório.

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