• hikafigueiredo

"Um Barco para a Índia", de Ingmar Bergman, 1947

Filme do dia (320/2021) - "Um Barco para a Índia", de Ingmar Bergman, 1947 - O marinheiro Johannes (Birger Malmsten) retorna para sua cidade após sete anos afastado. Ele encontra velhas conhecidas e se depara com Sally (Gertrud Fridh), uma antiga corista que fora abandonada por Johannes quando partiu para o oceano. Rejeitado pela moça, ele relembra acontecimentos de anos passados e revela o motivo de seu retorno.





Terceiro longa metragem do mestre, o filme é baseado na peça homônima de Martin Söderhjelm e trata de um triângulo amoroso envolvendo um pai, seu filho rejeitado e uma corista do vaudeville. Ainda que o roteiro não seja original do diretor, a obra explora temas recorrentes da filmografia de Bergman - as relações familiares complicadas, o pai severo, a mágoa existente entre fraternos, a mulher subjugada, a relação amorosa problematizada, a depressão. Como sempre, Bergman é hábil em entregar personagens complexos, com espessura e que não se limitam ao maniqueísmo - o pior dos personagens têm motivações que, de certa forma, explicam suas ações e o melhor dos personagens têm lá suas máculas e defeitos. Também como de praxe na obra bergmaniana, temos um filme que adentra pelo terreno no sensorial e que permite ao espectador sentir as dores, angústias e alegrias dos personagens, participando emocionalmente da história. A narrativa apresenta quatro personagens - o pai, o Capitão Alexander Blom, um homem cheio de rancores, autoritário, agressivo e que imputa à família sua frustração de jamais ter vivido uma real aventura; o filho, Johannes, um jovem complexado, submisso ao pai abusivo, repleto de sonhos e faltando-lhe coragem para enfrentar seu genitor; a corista Sally, uma mulher bela e jovem que esconde sua carência por afeto por detrás de uma postura agressiva e interesseira; e a mãe, uma mulher que passou a vida à sombra do marido, subjugada e aceitando toda forma de agressividade e humilhação. Com este quarteto de personagens, Bergman constrói uma teia de relações complexas que aprofundam mágoas e diferentes formas de aprisionamentos e libertações. O roteiro é impecável, muito bem construído, não permitindo a existência de qualquer aresta. O diretor consegue, como nenhum outro, entregar diálogos profundos e emocionados sem parecerem piegas, exagerados ou deslocados. A narrativa é circular - inicia-se com o retorno de Johannes à sua cidade natal, passa para as lembranças do marinheiro e retorna para o presente, quando temos o desfecho. O ritmo é lento, mas não tanto quanto outros filmes do mesmo diretor. Formalmente, temos um filme bergmaniano típico, ou seja, milimetricamente construído para causar, no público, as sensações e emoções imaginadas pelo diretor. A fotografia P&B majestosa, de Göran Strindberg (Bergman ainda não havia iniciado sua parceria com Sven Nykvist), consegue criar atmosferas diversas que, aliada à escolha dos ambientes, conduz sensorialmente o espectador. No caso, temos nitidamente a divisão entre ambientes internos, profundamente claustrofóbicos e ligados a situações negativas de submissão ou humilhação, e os externos, referentes a situações de prazer ou, quando ligados a ações negativas, referentes a circunstâncias de revelação ou libertação. Bergman era, ainda, um exímio diretor de atores, capaz de extrair emoções até de um paralelepípedo. Aqui temos as ótimas interpretações de Birger Malmsten como Johannes, ator muito utilizado por Bergman no início de sua carreira - trabalhou em "Chove sobre Nosso Amor" (1946), "Música na Noite" (1948), "Prisão" (1949), "Sede de Paixões" (1949), dentre outros; Holger Löwenadler como Capitão Blom; Gertrud Frihd como Sally; mas, quem me impressionou foi Anna Lindahl como a personagem Alice, mãe de Johannes e esposa do capitão - extremamente expressiva, ela consegue imprimir anos de mágoa, dor e solidão em sua personagem. Bem, eu sou sempre muito suspeita para falar de Ingmar Bergman, pois o tenho como mestre supremo do panteão dos diretores excepcionais - toda a sua obra, a meu ver, é magnífica e diferenciada, logo, tecer loas a qualquer filme dele é chover no molhado. Sem meia palavras - apenas vejam. Tudo. Dele.

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