• hikafigueiredo

"É Apenas o Fim do Mundo", de Xavier Dolan, 2016

Filme do dia (390/2020) - "É Apenas o Fim do Mundo", de Xavier Dolan, 2016 - O escritor Louis (Gaspard Ulliel) retorna para sua cidade natal para visitar sua família após ficar doze anos longe. Sua intenção é contar-lhes que está bem próximo de morrer. No entanto, a recepção de recebe tornará difícil a tarefa.





Baseado na peça teatral homônima de Jean-Luc Lagarce, o filme explora as tensas relações familiares da família do protagonista, baseadas em mágoas ancestrais, cobranças, ciúmes, baixa autoestima, acusações e inveja. O que começa com pequenos "cutucões" e grosserias generalizadas vai evoluindo, ao longo da narrativa, para acusações mais específicas, mágoas consolidadas e violência física e psicológica. Ainda que a tensão alcance todos os membros da família em maior ou menor grau e de diferentes formas, dependendo do integrante, é entre os irmãos Louis e Antoine que a coisa pega de verdade. Enquanto Louis expõe certo refinamento, desenvoltura na sociedade (já que é um escritor de sucesso) e prestígio social, o irmão mais velho, Antoine, mostra mágoa, recalque e inveja do sucesso do mais novo, principalmente por conta de sua baixa-autoestima. Inconformado com o sucesso de Louis que, sob sua ótica, abandonou a família, Antoine fará de tudo para que ele volte de onde veio. A obra me causou uma boa dose de incômodo face ao tratamento que Antoine dispensa a Louis pois, muito embora esse realmente tenha dado as costas aos familiares, ele retornou ao lar materno na intenção de tentar uma reconciliação. O filme traça um diálogo bem interessante com dois outros filmes que abordam o tema "conflitos familiares": o maravilhoso "Festa de Família" (1998) e o também ótimo "Assunto de Família" (2018) - comum a todos, as acusações, o mal estar estabelecido e a guerra deflagrada entre os familiares. Gostei de como Dolan optou por perscrutar rostos, em especial o do protagonista, extraindo de detalhes faciais o máximo da mágoa represada por anos . Também gostei dos diálogos vociferantes, especialmente aqueles advindos de Antoine. A trilha sonora trouxe apenas umas três músicas diferentes, mas tenho de dizer que gostei de todas. Curti demais as interpretações do elenco, com destaque para Gaspar Ulliel como Louis - a gente percebe um milhão de pensamentos e sentimentos passando pelo personagem enquanto sua fisionomia aparenta quase serenidade e total impassibilidade; Marion Cotillard como Catherine - a forma como ela se embanana e gagueja é a de uma mulher atemorizada, uma evidente vítima de violência psicológica por conta do companheiro Antoine; e, claro, Vincent Cassel como Antoine - eu adoro o ator que, talvez por conta de seus traços pouco delicados, vira e mexe interpreta tipos rústicos, grosseirões, revoltados e violentos, e sempre se sai muito bem neles. O filme é muito bom, mas vai causar constrangimento e mal-estar no espectador e, possivelmente, certa dose de piedade. De qualquer forma, ele vale a pena. Recomendo. PS: o filme foi agraciado com o Grand Prix no Festival de Cannes e com os prêmios César de Melhor Ator (para Gaspar Ulliel), Melhor Montagem e Melhor Direção (para Xavier Dolan).

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