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“18 Buracos para o Paraíso”, de João Nuno Pinto, 2026

hikafigueiredo
há 1 minuto
2 min de leitura

Filme do dia (43/2026) – “18 Buracos para o Paraíso”, de João Nuno Pinto, 2026 – No Alentejo, em Portugal, uma família passa um último verão na fazenda de seus antepassados, prestes a ser vendida para um grupo financeiro estrangeiro. Um incêndio em terras vizinhas isola a família na casa da fazenda, fazendo com que todos pensem acerca do futuro.


 

O filme se desenvolve sob três perspectivas diferentes, cada qual ocupando um terço da narrativa. No primeiro terço, acompanhamos a visão de Francisca, a irmã mais velha. Reticente, ela se opõe à venda da fazenda, mas é voto vencido entre os irmãos. Sua perspectiva é familiar e saudosa, ela não se conforma de perder o local onde cresceu. O segundo terço é dedicado à Catarina, a irmã mais nova. Sua concepção abrange o ganho financeiro advindo da venda das terras e como isso poderia retornar como vantagem para si e seu pretenso trabalho como escritora de livros de autoajuda e espiritualidade. O último terço aborda Susana, a filha da caseira Alma, que se dedicou a vida inteira àquela família e agora está em vias de ser expulsa do local sem qualquer compensação financeira por seus serviços. Na minha visão, este é o terço mais interessante e rico, pois expõe de uma maneira bem vívida a exploração a que os trabalhadores – em especial os domésticos – estão sujeitos. Neste terço, toda aquela simpatia através da qual as personagens Francisca e, principalmente, Catarina são apresentadas cai por terra e a verdadeira face egoísta, oportunista e intransigente da família é exposta. As cenas finais, de verdadeiro horror, remetem à falta de empatia da sociedade burguesa e a necessidade de auto acolhimento das camadas mais humildes. Apesar de aparentar certo maniqueísmo, as personagens – em especial Susana – têm facetas positivas e negativas, tornando-as humanas e mais factíveis. A obra também resvala em questões ambientais, tocando em temas como o aquecimento global e a destruição da vegetação natural para dar lugar a grandes empreendimentos. A atmosfera inicial do filme é de desalento, mas, gradualmente, ela caminha para um clima de tensão, desespero e emergência à medida que os incêndios se aproximam da fazenda. Nesse sentido, existe um diálogo bem forte de obra com o maravilhoso “Afire” (2023), pois também aqui as tensões internas encontram relação com o fogo que se aproxima. O filme brinca com a questão temporal, pois as três perspectivas são expostas dentro de um mesmo período, cerca de dois a três dias, então passamos as 72 horas de um ângulo, para depois retornarmos ao início do mesmo período sob a nova ótica. Destaque para o desenho de produção e a fotografia que vão mudando conforme o incêndio se aproxima – quanto mais o fogo se alastra, mais “amareladas” e esfumaçadas (literalmente) as imagens vão se tornando. O elenco traz Margarida Marinho como Francisca, Beatriz Batarda como Catarina, Jorge Andrade como Lourenço e Rita Cabaço como Susana. Na minha opinião, o filme é interessante e “cresce” do começo para o fim. Não é nenhuma obra prima, mas vale a visita. Vigésimo oitavo filme visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 
 
 

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