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“Fjord”, de Cristian Mungiu, 2026

hikafigueiredo
há 15 horas
2 min de leitura

Filme do dia (41/2026) – “Fjord”, de Cristian Mungiu, 2026 – O casal Mihai (Sebastian Stan) e Lisbet (Renate Reinsve), de origem romena, muda-se, junto com os cinco filhos, para uma pequena aldeia norueguesa. Conservadores e muito religiosos, os pais impõe aos filhos uma educação bastante tradicional e severa. A suspeita de que o casal possa estar impondo castigos físicos aos filhos leva as autoridades norueguesas a retirar sua guarda dos pais, dando início a uma batalha jurídica não apenas pela guarda, mas também pela própria liberdade.


 

Discorrendo sobre tolerância e respeito às diferenças, o austero filme romeno envereda por um terreno no mínimo arriscado ao retratar uma história que expõe os excessos de uma sociedade pautada na liberdade, nos direitos individuais e em valores progressistas. O casal protagonista é visto com reservas pela sociedade norueguesa por sua profunda religiosidade e pela severidade como cria os filhos, sob rígidos preceitos conservadores – o que não quer dizer que eles não amem e cuidem com zelo deles. Certo dia, a presença de marcas no corpo da filha adolescente faz com que o casal seja denunciado, de forma infundada, por agressões aos filhos. É iniciada uma investigação e as autoridades norueguesas acabam por retirar, cautelarmente, a guarda dos filhos do casal, além de processá-lo criminalmente. A narrativa cresce exponencialmente, evidenciando diversos absurdos e autoritarismos das autoridades norueguesas por mero preconceito contra aqueles que são diferentes. Evidente que, pela lógica, a justiça estaria fazendo o correto – afastar crianças de pais abusivos e violentos. A questão, aqui, é delimitar o que seriam pais agressivos sem recair em uma leitura equivocada apenas por estar sendo imposta uma educação mais rígida às crianças. A narrativa aponta para a questão de que mesmo uma legislação correta e bem formulada pode ser nociva às pessoas quando mal aplicada. A violência imposta à família protagonista é infinitamente maior do que aquela advinda de eventual palmada corretiva dada – inclusive aos filhos, privados não somente dos pais, mas, também, da convivência com os demais irmãos, uma vez que foram pulverizados em lares adotivos. O filme é daqueles que fazem nascer uma indignação no espectador pela injustiça imposta a todos os envolvidos. Num ritmo pausado e contante, a obra conta com um formato bastante convencional e se caracteriza por uma fotografia sóbria, de planos médios, sem brilho, e por um desenho de produção que prioriza cores escuras e austeras – a rigidez da justiça é significativamente transposta às imagens. No elenco, duas “feras” – Sebastian Stan e Renate Reinsve, dois intérpretes que nunca erraram e que conseguem imprimir em seus personagens toda a agonia, indignação e angústia por verem sua família ser, paulatinamente, desmembrada. O filme é excelente, é uma das obras favoritas indicadas ao Oscar e foi agraciado com a Palma de Ouro em Cannes (2026). Recomendo muito e certamente será lançado nos cinemas oportunamente! Vigésimo sexto filme visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 
 
 

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