• hikafigueiredo

"A Cor do Paraíso", de Majid Majidi, 1999

Filme do dia (366/2020) - "A Cor do Paraíso", de Majid Majidi, 1999 - Mohhamad (Mohsen Ramezani) é um menino cego que estuda em uma escola para deficientes visuais. Quando chegam as férias, Mohhamad retorna para sua casa, onde vive com seu pai viúvo, suas duas irmãs e a avó adorada. No entanto, o pai de Mohammad vê nele um fardo e procura, de todas as formas, uma solução para o menino, ao mesmo tempo em que planeja se casar novamente.





Do mesmo diretor do magnífico "Filhos do Paraíso" (1997), a obra traz o mesmo tom poético do filme antecedente. No entanto, diferente da obra anterior - redondinha, perfeitamente "amarrada" -, esta traz alguns probleminhas de roteiro, mas que não chegam a estragar o resultado final. O cerne da história está na relação de Mohhamad com seu pai - ainda que o menino seja inteligentíssimo, estudioso e capaz, seu pai o vê como um fardo, acreditando que sua deficiência o transforma em uma pessoa inábil e dependente. Preocupado em casar-se novamente, o pai de Mohammad teme que o menino seja um empecilho à nova relação e, contra a vontade da avó do garoto, quer "dar um rumo" para o filho. Mohammad percebe a rejeição do pai e sofre com isso, assim como a avó que o adora. A narrativa é linear, a linguagem é bastante convencional, o ritmo é bem lento, como de costume nos filmes iranianos, e a atmosfera é ligeiramente melancólica. Mas o que realmente marca o filme é a incrível sensibilidade que ele mostra, tanto na relação de Mohhamad com sua família, quanto na forma como ele sente o mundo. A obra é uma verdadeira poesia na forma de imagens e são inúmeras as cenas visualmente lindas, como a cena em que Mohhamad, sua vó e as irmãs colhem flores em um impressionante campo colorido. A fotografia, por sinal, é bastante colorida, aproveitando os tons das paisagens naturais. Outro quesito que me chamou a atenção foi a edição de som, que tentou trazer para o espectador a percepção sonora do menino cego - assim, a edição de som privilegiava alguns elementos sonoros para indicar o que estava chamando a atenção de Mohhamad - o gorjeio de um pássaro, o miado de um gato ou o som das ondas do mar, que, colocados em evidência, demonstravam no que o menino estava atento. O ator que interpretou Mohammad - realmente cego - era uma graça, super expressivo e competente para o papel. Salameh Feyzi, que interpretou a avó, também se saiu bastante bem na sua atuação. No elenco, ainda, Hossein Mahjoub como o pai, Farahnaz Safari como a irmã mais velha e Morteza Fatemi como o carpinteiro. A obra é profundamente poética, o que acaba por encobrir algumas soluções de roteiro um pouco gratuitas (cenas que a gente não entende bem porque estão lá, sabe?). O filme não é tão perfeito como "Filhos do Paraíso", mas não deixa de ser muito doce e bom. Eu gostei muito. Recomendo com carinho.

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