• hikafigueiredo

"A Glória e a Graça", de Flávio Ramos Tambellini, 2017

Filme do dia (03/2019) - "A Glória e a Graça", de Flávio Ramos Tambellini, 2017 - Graça (Sandra Coverloni), mãe "solo" de dois filhos, descobre que tem um aneurisma inoperável e fatal, que poderá romper a qualquer momento. Desesperada por não ter com quem deixar os filhos, Graça sai em busca do irmão Luiz Carlos, o qual não vê há quinze anos, encontrando, então, a travesti Glória (Carolina Ferraz), em quem o desaparecido irmão se tornou.





O filme possui um argumento ótimo, mas a execução ficou aquém de seu potencial. Apesar da temática importante e atual - a aceitação das diferenças e a incorporação daqueles que, historicamente, sempre permaneceram à margem da sociedade - a obra, infelizmente, resume-se em si mesma, não abrindo espaço para importantes discussões. Talvez até seja uma leitura pessoal, mas tive a sensação de que a história manteve-se limitada em seu conteúdo, esvaziando, assim, o debate que poderia estabelecer. Senti falta, ainda, de uma expressão mais "emocional" - em outras palavras, o filme se comunicou com meu racional, mas pouco ou nada me atingiu no campo da emoção, o que, considerando o tema, para mim foi imperdoável. De forma bem objetiva, a obra conta uma boa história, mas pára por aí, o que foi uma pena, pois poderia aprofundar - e muito - todas as questões levantadas. Impossível, também, não fazer uma crítica mais que óbvia - por que não colocar uma travesti de verdade no papel de Glória, ao invés de optar por uma mulher cisgênero? O filme poderia ter contribuído pela representatividade desse grupo tão marginalizado e não o fez, o que, para mim, é uma contradição e me soa meio "aproveitador" - a obra se apropria de uma temática delicada e controversa (a aceitação social das travestis), mas não contribui, de fato, para tal aceitação ao optar por uma atriz conhecida ao contrário de uma travesti real. Curiosamente, no entanto, uma das grandes forças da obra encontra-se justamente na atuação de Carolina Ferraz como Glória - ela está ótima no papel, super convincente, até por ter uma voz grave e um porte meio "grandalhão", se comparado ao da atriz Sandra Coverloni que, aqui, está bastante apagada, apesar de seu indiscutível talento (basta lembrar dela em "Linha de Passe", que lhe rendeu prêmio de Melhor Atriz em nada menos que Cannes!). Para resumir, o filme é bem razoável, porém poderia ter ido muito além, pois o argumento abria margem para ser uma obra excepcional, mas parte do potencial foi desperdiçado. Vale a pena ver? Até vale, mas sem grandes expectativas (acho que esse foi o grande problema, eu esperei demais do filme e me frustrei...).

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