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  • hikafigueiredo

"Carne Trêmula", de Pedro Almodóvar, 1997

Filme do dia (364/2021) - "Carne Trêmula", de Pedro Almodóvar, 1997 - Espanha, 1970. Em plena ditadura franquista, a prostituta Isabel (Penélope Cruz) entra em trabalho de parto e dá à luz ao seu filho Victor dentro de um ônibus. Vinte anos depois, Victor (Liberto Rabal) envolve-se com Helena (Francesca Neri) e, durante uma discussão, acaba disparando uma arma que mudará, para sempre a vida de ambos.





Depois de anos explorando as temáticas femininas e tendo como protagonistas os mais diversos tipos de mulheres, o diretor Almodóvar volta-se para o universo masculino e opta por discorrer sobre fraquezas, medos e inseguranças de personagens deste gênero. Para tanto, escolhe como ponto nevrálgico um triângulo amoroso - ou melhor, vários triângulos amorosos que se sobrepõem, entrelaçando cinco personagens diferentes. Aqui, os personagens masculinos se digladiam, mostram poder e força aos seus oponentes, tudo para esconder o que nos é óbvio - o fato de estarem subjugados por mulheres por quem estão apaixonados ou envolvidos sexualmente. Assim, muito embora "rosnem e ladrem" para seus rivais, os personagens, no íntimo, mostram-se frágeis, temerosos e inseguros - ao contrário das personagens femininas, sempre bastante seguras de si. A obra, ainda, toca em temas como culpa, responsabilidade, mágoa, vingança, disputa por afeto e perdão. Claro que como bom cinema almodovariano, o filme exala sensualidade e traz algumas cenas de sexo ousadas, apesar da ousadia estar muito mais sugerida do que explícita. Como pano de fundo, as profundas mudanças políticas e também sociais pelas quais a Espanha passou no intervalo de pouco mais de vinte e cinco anos, saindo da ditadura franquista para uma democracia plena. A mudança de foco do diretor - do universo feminino para o masculino, ainda que em suas nuances mais sensíveis e delicadas - é acompanhada de uma notável modificação de "tom" - sai o humor irônico, escrachado e exagerado do início da carreira do diretor e entra um tom mais sóbrio, com narrativas mais reais e dramáticas e desfechos muito mais trágicos; o humor desaparece quase por completo, fazendo com que o espectador adote uma postura mais intimista. A narrativa é linear, em ritmo bastante intenso e marcado por "picos" de clímaces e plot-twist. Visualmente, a obra ainda se caracteriza por sua fotografia contrastada e saturada, bem como pela direção de arte muito colorida, mas tudo bem menos exagerado que nas obras anteriores - não temos mais aquela estética assumidamente "kitsch", com uma pegada setentista, excetuando na primeira cena, que se passa exatamente na década de 70. A obra traz uma grande variação de planos, bem como de movimentos de câmera - a cena de abertura, inclusive, é magnífica com seus travellings e panorâmicas e sei lá mais quantos movimentos de câmera cujos nomes eu nem me lembro. Também na direção de atores, o filme traz uma mudança clara: saem as interpretações histriônicas, que dão lugar a atuações mais contidas, discretas e sutis (se considerarmos, claro, tratar-se de um filme de Almodóvar). No elenco, Liberto Rabal como Victor, Francesca Neri como Helena, Angela Molina como Clara, Pepe Sancho como Sancho, Penélope Cruz como Isabel e Pilar Bardem como Centro. Mas, quem, na minha opinião, rouba a cena é Javier Bardem como David, o personagem que, no final das contas, centraliza todas as disputas - sua interpretação é poderosa e instigante. Este grande filme do diretor espanhol marca uma nova fase de seu cinema, onde temas dramáticos, dolorosos e traumáticos são expostos com extrema sensibilidade. Grande filme. Recomendo demais!

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